Era uma vez um monge, não sei se chinês ou japonês, que tinha um discípulo ocidental. Este, certa feita, ao meditar, teve um sobressalto. Perguntou ao seu mestre, “posso morrer ao meditar?”. O mestre lhe respondeu “bem, de certa forma esse é o propósito”. “Mas se é esse o propósito, o suicídio não seria um caminho?”, respondeu o discípulo.
M: “Ora, não foi pensando assim que a meditação foi buscada, de início. No caminho, descobriu-se também qual era o objetivo. A surpresa está justamente em que as formas de vida, que parecem diferentes, na verdade são a mesma, e que as formas de morte é que diferem profundamente. Mas isso é uma constatação a que não se pode chegar ‘na vida’, somente ‘na morte’. Daí a dificuldade”.
D: “Então a morte precede a vida? Pensei ter ouvido coisa semelhante no credo fascista: ‘viva a morte’”.
M: “Me perdoe a falta de familiaridade com as noções que você usa. Me parece que ‘fascismo’ vem de ‘feixe’, não? Se for assim, diria a você que meu povo aprendeu a conhecer os feixes e as tramas, e elas de fato são fortes, mas existe sempre a lâmina e o jeito de cortá-los. Ora, é verdade que a morte precede a vida, mas justamente por isso não faz sentido louvá-la, nem mesmo procurá-la, se ela já está sempre ‘aqui’. Faz sentido entender que a singularidade da vida tem a marca do morrer, não a do viver. A inversão dessa ordem é concebível, mas a ordem habitual não pode ser descartada – também não pode ser defendida –, ao passo que a inversão, sim, pode. Essa é a sua fraqueza. Todas as variações do perecimento são atualizações de uma univocidade, que é a assinatura imanifesta do morrer, diferente em cada vida, mas que não se define pelo percurso, pelas atividades, pelas ocorrências. Ela, inversamente, determina o sentido de cada ocorrência, e inclusive a dimensão do lugar da ocorrência, qual é a sua forma, o seu número, o seu gênero, etc.”
D: “Então a positividade da vida está no perecer? Isso quer dizer que há uma impossibilidade de ação no que diz respeito à morte. Em outras palavras, a positividade da vida não pode ser afetada, ela é impassível, porque qualquer possibilidade de atingi-la chegaria atrasada. Então a pergunta ‘o que fazer?’ cai no vazio…”
M: “E, ainda assim, agimos. Veja, a pergunta, sendo feita, terá alguma resposta, mas isso é irrelevante para a ação. Mas, como você mesmo disse, não se pode de fato matar, sequer a si mesmo. Seria como tentar matar uma árvore cortando apenas um galho.”
D: “Mas como se cumpre um destino senão pelas histórias dos eventos?”
M: “Os eventos são admiráveis, é nisso que consistem, em ser admiráveis. O valor disso supera qualquer outro, e inclusive os contém. O destino se cumpre ao cessar a agitação, que não é o mesmo que ficar parado. Ficar parado e não agitar-se são coisas inteiramente diferentes.”