mar
6
2010

Kuala Lumpur

Preconceito é um negócio de louco. Vamos lá: existe o preconceito de gênero e o preconceito de espécie [isso não é biologia, seria uma questão lógica, mas eu só quero um pouco de terminologia, para começar – como sempre]. O preconceito de gênero é o seguinte: você se aproxima de alguém e entende que esse alguém é do gênero x. Por exemplo, do gênero das pessoas desconfiadas, ou das pessoas que pensam rápido, ou daquelas que gostam de acordar cedo, ou outro gênero qualquer. Esse entendimento tem força de fato, ou seja, ele funciona, ele tem força de verdade, a despeito da sua verdade forçosa (a diferença é bem clara, não se complique). A outra pessoa, aquela que foi entendida por você, tem também o entendimento de algo que ela conhece como “eu mesma”. Se esse “eu mesma” é de fato ela mesma, bom, isso é uma outra história, e dela só vou dizer agora que não é tão importante assim.

Continuando: o entendimento de “eu mesma” pode ser bem complicado, cheio de frestas, ressalvas e confusões (por que ele não está aí para facilitar as coisas mesmo), e por isso o simples contato entre ele e o seu entendimento é conflito na certa, por mais boa vontade que se tenha. Agora, se eles estão organizados de forma intencionalmente contraditória, então não são bem pessoas que conversam, mas instituições, ou mesmo organizações.

E esse é o preconceito de gênero. Assim vivemos, disso sofremos e nisso sonhamos.

A ele se soma, eventualmente, o preconceito de espécie. Deveria haver uma palavra diferente, porque são coisas muito diferentes, e isso é muito importante, dá a maior confusão. Mas são distinções novas, é preciso tempo. Enfim, o preconceito de espécie é aquele que diz que “entre os do gênero x, fulano é daqueles que y”. Por exemplo, “entre as pessoas que pensam rápido, fulano é daquelas que são desconfiadas”. Bom, se o gênero já dava problema, imagine a soma. O pior é quando duas pessoas resolvem entrar em acordo a respeito de um, mas esquecem do segundo. Por que há uma questão de tempo aqui, e ela é decisiva: o entendimento a respeito dos dois deve ser absolutamente simultâneo. Ora, como isso é, na prática, impossível, o que a gente faz é ficar olhando o outro de longe. Fica olhando assim, meio com cara de boi.

Como não ser prisioneiro do conhecimento, vasto, que você tem a respeito dos outros, involuntariamente? Fazer a crítica não funciona, sua velocidade é pequena, é a mesma velocidade dos acordos, dos contratos e das denúncias. Fica-se na mesma. Tem uma coisa que pode funcionar: ser ativo no caminho do preconceito, adorná-los com qualidades e detalhes, até que eles comecem a compor imensos vitrais, tão ricos que a gente se esquece um pouco dos efeitos de verdade. Aí dá um baita medo, porque acha que vai ficar ser reação diante de um desconhecido. Você fica sem reação, sim, mas fica com ação, que é muito melhor.

Olha só, você provavelmente não tem planos de viver para sempre. Não é mais criança, enfim. No lugar desses planos, entretanto, é quase certo que se instalou um projeto de vida eterna, que é o projeto dos conceitos.  Isso também não se realiza: os pensamentos também morrem, ok? Todos. E nem duram muito tempo. E cuidado com a imagem de um “vazio” que estaria à espreita dos pensamentos, como um silêncio de fundo, ou um pano branco à guisa de cenário. A Ciência, que pelo menos para isso serve, nos demonstrou, e redemonstrou, que esse silêncio, que esse vazio, não existem, em lugar nenhum.

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mar
2
2010

道德經 十一章

十一章

三十輻共一轂。當其無,有車之用。埏埴以為器。當其無,有器之用。鑿戶牖以為室。當其無,有室之用。故有之以為利,無之以為用。

11

trinta raios unem-se no aro
no ausente, é presente
a utilidade do carro

moldado o barro, faz-se o jarro
no ausente, é presente
a utilidade do jarro

cortando portas e janelas, faz-se a casa
no ausente, é presente
a utilidade da casa

assim
faz-se uso do presente, faz-se útil o ausente

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fev
26
2010

Tenuki (going “elsewhere”)

Software development and “people management” are today one and the same thing. There is almost no relevant new application that doesn’t target relationships (of all sorts) between people (of all kinds, machinic included), and existing relationships themselves are being constantly and increasingly intercepted by these new software applications. That can be considered a universal phenomenon, so far as we don’t postulate the eventuality of cultural worlds being so deeply split (tech and non-tech) that it becomes irreversible, which is hard to even imagine – yet quite possible. Meanwhile, the software development process has been itself overwhelmed by the dynamics of relationship networks. Again, a far-reaching event: upstream, relationships become increasingly central to the software business; downstream, the design teams have largely become virtual communities themselves – sometimes gladly, often not.

A paradox: the enormous amount of data that is being produced all along this process is mostly “about nothing”. Since there isn’t a clear distinction anymore between product and producer, written speech (which is now  massively stored, linked,  and tagged) in general ceases to be “about something”, and becomes just talking for the sake of it. All that wild data is already more abundant and more important than all the structured, organized data in the world.

Make no mistake: it gets stronger and more meaningful exactly because it is wild. Also more human, if you will, as it gets more machinic. When will we realize that program writing itself follows the same principle?

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fev
17
2010

Gibraltar

Como se pode estar errado sem saber? Ora, sempre que se está errado, é sem saber (será?). O que se sabe então (porque algo, ou até muito, sempre se sabe)? Sabe-se algo pela lei, pelo acaso, ou de brincadeira [três termos? Não como um-dois-três, mais como 萬物.Enfim, nada com que se preocupar]. A lei não foi você que escreveu, esse é o seu encanto: o de não reconhecer autor. É algo de que você participa, o que não é pouco, mas isso não te faz dono dela. O conhecimento que a lei dá é como uma rede, age retendo, mas apenas as coisas grandes.

O conhecimento do acaso é o conhecimento da experiência, dos encontros. É suculento, mas incontrolável. Leva tempo para ser útil, e em regra chega tarde demais. Mas dá sabor à vida, o que não é pouco. O conhecimento da brincadeira é o princípio da eficácia. Da eficácia real, não da eficácia possível. Essa última é infelizmente sempre muito maior e mais apaixonante – por ser toda – mesmo que (e daí “infelizmente”) nos coloque na posição de não-verdadeiramente-dono, e/ou nos faça chegar tarde demais.

O que fazer?

Cuidar do procedimento do conhecimento, a começar por dar-lhe importância, o que implica cuidado. É possível saber sobre o erro, mas para isso é preciso suspender a suposição de erro preemptiva: “sei que erro”.  Não é tão fácil assim, simplesmente saber que erra, como não é tão fácil nada saber do saber. Já adianto que algo sempre se sabe, e que bem se sabe o que se sabe (pois é da sua natureza ser sabido), portanto comecemos daí, por essa responsabilidade.

Responsável é aquele que quando lhe falam, responde. Veja que a eficácia do brincar, que nos faz saber do erro, não é a de não errar mais, mas a de errar certo.

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fev
7
2010

道德經 十章

十章

載營魄抱一,能無離乎。專氣致柔,能嬰兒乎。滌除玄覽,能無疵乎。愛民治國,能無知乎。天門開闔,能為雌乎。明白四達,能無為乎。生之畜之,生而不有,為而不恃,長而不宰,是謂玄德。

10

legião de espíritos levados abraçados em um: poder sem separar!
soprar o ar suavemente: poder na criança!
clarear a visão do oculto: poder sem marcas!
amar o povo, conduzir o país: poder sem saber!
abrir e fechar a porta do céu: poder no agir feminino!
rebrilhar aos quatro cantos: poder sem agir!

gerando, cultivando
geração, nem assim presença
ação, nem assim expectativa
liderança, nem assim domínio

eis o sentido de conduta oculta

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jan
24
2010

The smallest virtual machines will inherit the earth

Water lilies

What if we give each object its own virtual machine? Of course, it would be a teeny, tiny VM, so small that it wouldn’t need any real OS, except for a pretend kernel, and the networking protocols that would enable it to communicate with the outside world. It would contain also a bunch of pseudo service managers, whose only purpose would be to render its object’s functions (I would say “methods and properties”, but I’m sure you can go beyond that) accessible to other objects.

And how would these “canned” objects find each other? Well, isn’t that what the Web 3.0 people is talking about? Granted, these people are weird, but as long as their work is useful I don’t really care. Of course, direct (random) access and URIs that work are a precondition, so we need some sort of indexing service that maybe distributed over the net. The “Web of all data” that people are talking about (again, sometimes weirdly) would be definitely useful at this point.

At some point we could be even thinking about it in a purposeful way, which would enable us to come to an elegant, minimalistic reengineering of the infrastructure our objects need, but right now we can get by with TCP/IP and all. What we need kinda urgently is a free, public, open cloud, that is extremely easy to use (without loss of generality)!

The most important question for last: after all this is put in place, what would these free objects do? Oh, nothing really important, individually.

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jan
22
2010

道德經 九章

九章

持而盈之,不如其已;揣而梲之,不可長保。金玉滿堂,莫之能守;富貴而驕,自遺其咎。功遂身退天之道。

9

manter repleto
não completa
esteio perfeito
não sustenta

sala cheia de ouro e jade
tesouro da dificuldade
riqueza vale arrogância
autoperda que culpa

realizar retrocedendo:
caminho do céu

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jan
17
2010

Os Anéis do Senhor

Sunset De início havia o Chronos, essa é a questão científica dos algoritmos, e da Computação: a condição da ciência, para além do fenômeno, é a de uma forma do tempo, e teria(?) que ter certas características. Muito bem.

Então começamos a ensinar isso aos jovens, que iriam descobrir, inevitavelmente, outras formas do tempo, sem falar que a eficácia nunca esteve do lado do Chronos. E então nunca saímos dele, na Teoria. Não faz mal, a teoria não é só a Teoria, tudo bem.

Na sua versão mais sofisticada, a programação é a escrita de um roteiro de teatro. Ela já era difícil quando se tratava apenas de contar uma história sem personagens, mas convenhamos, o que se pode dizer da vida sem usar ao menos personagens? E então fizemos uma programação orientada a… personagens (entendeu?).

Só que escrever uma história completa, com personagens verossímeis e tudo, é muito mais difícil, pobres dos programadores/roteiristas. É aí que entram os roteíros prontos-para-usar. Mesmo assim a coisa não ficou bem parada, especialmente no momento em que as coisas do mundo começaram a entrar no jogo. E agora até mesmo as pessoas de verdade, com as suas máscaras complicadas e suas leis curvas, querem e precisam entrar em ação. Hordas de bárbaros.

Um engenheiro de verdade não deveria dar o passo maior que a perna. Um verdadeiro engenheiro deve saber quando recorrer aos arquitetos: seu orgulho depende inclusive desse limite. Estes, por sua vez, devem saber a hora de dizer às pessoas que se virem, que se apropriem do espaço desenhado. E que se danem, se esse for o seu gosto. Com as ferramentas adequadas, claro.

Um arquiteto de verdade sabe que o problema do cliente (que não é um usuário!…) nunca será realmente o seu problema. Ao fazer o desenho da construção, que é bem sua, bem possível, sabe que ela não é o Possível, muto menos o Virtual, mesmo que haja flertes (pois essa é a graça da coisa). E que alguém me diga, pelo amor de Deus, qual é o problema nisso tudo. Eu não vejo nenhum. Que demos repouso ao Chronos, portanto. Ele está exausto, coitado.

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jan
16
2010

Die hard – Dura de matar

WinterMe dei conta de que um psicanalista e um físico quântico são primos, e não de um jeito barato. A ligação entre a Psicanálise e a Física não existe, deixemos claro de início. Há ressonâncias, mas elas valem o que valem, e isso não autoriza ninguém. Ressonâncias são ligações, por outro lado, mas não são ligações funcionais (e aí está a piada: são ligações… quânticas). Isso é outra história, voltemos.

O psicanalista e o físico quântico têm uma nobreza, uma distinção, digamos assim. Ambos se voltam para as coisas que existem, com o uso de categorias inteiramente estranhas ao mundo da experiência sancionada pela ordem do discurso. Incompossíveis com esse mundo que é tão “nosso”, essas categorias são entretanto também originárias da experiência, mas de uma outra (ou outras) modalidade de experiência, que esses valentes conseguiram fazer reconhecível, ainda que sempre com grande (e saborosa) dificuldade. As pessoas são como as coisas, quando vistas de bem perto: mudam de natureza de acordo com o modo de observar, de escutar. E assim a Física passou a ser também uma escuta. Que legal, eles escutam a própria luz….

Mesmo os psicanalistas (assim como seus primos) acreditam que essas várias modalidades de experiência não se misturam, pode haver furos, pontos de contato, mas a consistência delas se mantém: para todos os efeitos, para todas as conseqüências práticas, haveria isolamento – senão, qual é a graça? Para além dessas “barreiras de contato” fenomênicas (que, misteriosamente, parecem recobrir o mundo inteiro entre matéria e anti-matéria, entre eu e eu-mesmo), entretanto, compõem um multiverso, um Real polifônico, de que ainda se pode falar, embora corra-se o risco de dar bom-dia a cavalos. Coisa de louco: achei que a fenomenologia tinha morrido. Bem, ela com certeza está morta em si mesma. Assim, e por isso mesmo, adentramos a era da experiência.

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jan
15
2010

Agents and Patients

“I’ve seen an Agent punch through a concrete wall. Men have emptied entire clips at them and hit nothing but air. Yet their strength and their speed are still based on a world that is built by rules”, said Morpheus, and I would add: different from your readiness, your sensitivity, distinctive traits of a creature of habits.

While I’m on the subject of rules and habits: if you want children to develop intelligence, gently expose them to changes in habit, for habits are the foundation of our stubborness. This has to be done in a sensible way. Too fast, too broadly, or too deeply, and they will disconnect. Too slow, etc., and they’ll accomodate. There is good lazyness, and bad lazyness. The former has to do with tenacity and resilience, with the wisdom of movement without effort, the latter with the lack of options of the stubborn.

On the other hand, if you want children to develop sensitivity, gently expose them to variations on the rules they perceive as valid. Again, skillfully: belief and disbelief are different substances, and their appropriate dosage is ad hoc. At some point the question “why did the rules change?” will come afloat, and the answer must not be defensive. The fact that there are so many valid rules is rooted on the premise that all rules are subject to change. That may sound paradoxical, but really isn’t. That’s just the point where sensitivity kicks in. The volatile nature of rules is the source of their own strength (dýnamis), and nurtures the amazement we are able to feel as living creatures.

Before that, it is useless to expose children to canonic art and science, where intelligence and sensitivity are already frozen, inert.  Unless you want them to work as a vaccine…

So intelligence is not the same as skill, and sensitivity is not the same as good manners. We all need both, and in some balance. They may follow a different pattern of development in boys and girls, but not for the reason you may think, namely, because one would be more becoming, more natural in men, and the other in women. In fact, the exact opposite is probably the case. How could we be so deeply mistaken about this, and for so long? Because a perfect world, made of specialists, was once our dream.

As we now know, that would be a world with no future.



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