Jogar um jogo em que se ganha ou perde envolve encantar-se com o acaso de onde virá o resultado, com o imponderável. É preciso dar uma forma a esse acaso, a graça do jogo e da sua regra está em que esse imponderável pode ser reencenado, repetidamente. O jogo termina, mas não o jogar. A vitória vem, ou não, mas o vitorioso é “herói” por sustentar a sua personagem enquanto vence. É que a vitória, que se concretiza apenas ao final, no entanto dobra-se sobre a duração do jogo: já se “sabia” dela antes, já se a pressentia. O fundamento do jogo está nessa passagem da vitória, de objetivo supremo, a mero pretexto, que retorna e se repete infinitamente. A exceção são os mitos fundadores de cada jogo (a imagem de um tabuleiro, de uma mesa, de uma quadra, ou de um campo, evocam o Cosmos, e uma cosmogonia), e as grandes singularidades (os jogadores míticos, e as jogadas memoráveis), mas esses são os elementos do pano de fundo, parte do jogo e do jogar. É claro, nem sempre se está a salvo da degeneração, a salvo do excesso da vontade que imagina uma vitória última, uma eternidade sem retorno, e é capaz de sacrificar o próprio jogo nesse movimento.
Tudo isso parece marcadamente distinto daquilo que movimento o universo da ficção e da representação teatral. Aqui parece ocorrer justamente o inverso: um roteiro preside o espetáculo, especifica a ordem dos acontecimentos, em detalhes. Sabe-se o que vai acontecer – está escrito – mas, durante o desenrolar da narrativa, a ação do espectador suspende o tempo dos acontecimentos, o converte em uma espécie de instante eterno, ou pura duração, que faz com que o conhecimento do final não sirva como prejuízo da sua reencenação, mas ao contrário, opere a seu favor. Ao encontro do real, para longe da realidade: é porque se sabe o que vai acontecer (ou porque alguém sabe, no caso das histórias de suspense, mistério, fantasia – e a comédia e o improviso jogam com esse saber, como um tempero ácido que acentua o gosto) que o efeito do intempestivo se dá. É claro, nem sempre a salvo do delírio que acaba por anular a ficção, convertendo o roteiro em palavra sagrada, revelação, verdade estéril.
O que nos leva a essa distinção entre jogo e teatro é uma rivalidade que veio a existir – e que pode deixar de existir, porque não é um princípio abstrato. A pergunta que se faz aqui é: por que o prazer que se tira desses dois modos – da ficção e do jogar – é hoje tão distinto, e tão contraditório? É estranho que esses dois modos venham a discordar entre si, venham a estabelecer uma divisão das platéias em dois grupos rivais (por assim dizer), já que um olhar mais atento vai reparar que, nos bastidores e nos porões das arquibancadas, se alimentam um do outro. Estarão, ambos, competindo pela realidade, contra a própria ficção de que se alimentam?
A premissa do jogo que se ganha-ou-perde é uma renúncia subjetiva. Ela se dá no tempo da aceitação do resultado, cuja essência está em não ser garantida por uma personagem singular, mas num fora-de-sujeito. O valor de troca é um exemplo de funcionamento desse princípio de jogar: aceita um valor de troca quem aceita a inexistência de um agente arbitrador dos preços, e isso não é trivial, nem está dado. No limite, qualquer transação envolvendo uma corrência sem valor de uso envolve uma renúncia subjetiva, na qual nem todos embarcam, ainda que o mecanismo acabe funcionando por vias alternativas. Entrando num estabelecimento comercial, ofereço ao funcionário do caixa uma certa quantia em dinheiro. O troco é dado como certo pela visibilidade do preço, e pela aceitação de que a diferença entre a quantia oferecida e o preço pode ser obtida mediante a aplicação de um procedimento cuja certificação está disponível a qualquer um, a qualquer momento, pela confrontação com outro procedimento semelhante. Por exemplo, digamos que o preço é R$ 13,50, e entrega-se uma nota de R$ 20,00. Sei o que devo fazer, porque domino mais de uma maneira de obter o resultado, e sei que todas são equivalentes, mas isso implica que eu aceite que nenhuma delas seja, por si (pelo puro gesto, que seria então um rito), uma garantia necessária e suficiente, autônoma, eterna. Mas eu só sei que nenhuma forma de resolução particular é suficiente se tomar como premissa a inexistência de qualquer garantia intrínseca de valor, para qualquer transação que envolva um valor de troca. Quer dizer, isso só funcionará para mim, se tiver como certo que é assim que meu “adversário” também pensa, ou deveria pensar. Que, para além disso, é assim que todos pensam, porque é assim que se pensa.
Conclusão: joga jogos finitos quem não pensa em ganhar nada que tenha real valor com isso, a não ser a tranquilidade subjetiva que vem da premissa “pacificadora”: todos os demais também não ganharão, ninguém ganha nada real, nunca.
O caso da arte teatral é exatamente o oposto: desfruta de uma narrativa encenada quem supõe que os valores são fixados pelo roteiro, e não postos em movimento pela série dos procedimentos. Há também uma renúncia aqui: é a renúncia ao papel de roteirista, mas não à reivindicação do valor daquilo que se deu, ou daquilo que se recebeu, baseada no que está escrito. O pão nosso de cada dia será dado, a cada um, conforme o seu papel. Retomando o exemplo anterior:
“Entrando num estabelecimento comercial…”
Depende: qual estabelecimento? Que relação se tem com o dono, com o balconista, com o funcionário do caixa? De que roteiro se está falando? De que personagens?
“O troco é dado como certo pela visibilidade do preço (…)”
A visibilidade do preço não é garantia, é apenas uma parte do cenário. Uma parte importante, claro. Igualmente importantes, por exemplo, entre muitos outros detalhes – pois é dos detalhes que se trata aqui: se as pessoas usam uniforme (formal ou informalmente: vale como uniforme uma etiqueta, digamos, “tribal”), se o ambiente está limpo (ou não tanto, mas de acordo com uma certa concepção), o que diz a decoração, e assim por diante.
“Sei o que devo fazer, porque domino mais de uma maneira de obter o resultado”
Sei o que devo fazer exatamente porque não domino maneira alguma de obter o resultado (ou, o que dá no mesmo, domino uma ou mais maneiras, mas as tomo apenas como parte de um ritual, convenção, ou mandamento – do script, enfim). Sei o que fazer porque leio o roteiro, inscrito na situação. O roteiro pode ser adaptado, de acordo com linhas mais ou menos predefinidas, a partir de um repertório, que já está dado, e que é tabu.
Confio no ator que desempenha o seu papel, confio acima de tudo no roteiro, não nos procedimentos que se utiliza (que são apenas movimentos corporais). Meu critério é a obediência de todos ao princípio da narrativa, e a preservação do segredo e do mistério em torno dela. Usa-se uma aritmética de intensidades (muito, pouco, demais, suficiente), não uma teoria axiomática das quantidades, uma álgebra. E se o suficiente se revelar depois insuficiente, há possivelmente o recurso a uma cena de reivindicação e reparo da “injustiça”, e assim seguimos.
Pode surpreender – imensamente, até –, ao jogador de jogos finitos, que o seu domínio do saber seja inteiramente sem relação com um domínio do real, a tal ponto que o procedimento do ator/espectador teatral é mais frequentemente eficaz (no sentido coletivo, obviamente) do que o dele, nas suas iniciativas, ainda que se atenha a uma distribuição aparentemente muito rígida das relações, quase mecânica, ou seja, ainda que sua eficácia compreenda apenas um imaginário coletivo (o que, pensando bem, não é pouco). Ocorre que, mesmo estando preso a um roteiro, não está renunciando às suas habilidades espontâneas (mesmo as que não domine, ou não conheça), e também pode estar suscetível às variações do roteiro, já que o toma como vindo de fora. Ao voltar-se apenas para as ações que podem ser convertidas em morfismos, o jogador finito é um descobridor de relações, um criador de mapas, um crítico dos roteiros e dos valores, mas a sua eficácia também vem de fora (do coletivo), que é, afinal, de onde pode vir qualquer eficácia. O fato novo é que esse jogador, com toda a sua irritabilidade, pôde ser incorporado, com todos os seus arsenais, à narrativa de toda uma civilização, produzindo um (novo) mundo de valores. A isso temos chamado iluminismo, a solda entre o processo do símbolo (filho dos códigos da tradição e da soberania) e a imagin/ação, entre o jogo e a narratividade.
Hipótese: o esforço do jogador finito é sancionado apenas porque abastece o imaginário teatral de ferramentas simbólicas que servem à sua eficácia, estendendo-a a grandes grupos humanos. Isso acontece a despeito da reduzida (ou nula) consciência, desses beneficiários, dos procedimentos simbólicos que acabam adotando (aos quais tomam apenas como parte da “escrita”). Essa conjunção, entretanto, é uma cartada tipo “all-in”, em que tudo é apostado, e a perda, inevitável, é também total.
A matemática da computação é sobre a computação, não é, ela mesma, uma computação. Ela estuda a efetividade dos processos finitos, sem ser, ela mesma, devota dos processos finitos. Ela não se restringe à eficácia menor que se dá no plano teatral do imaginário, e que acaba sendo, então, apenas uma eficiência. Ela pode, por isso, prestar-se a estruturas narrativas menos rígidas, e uma compreensão dos procedimentos finitos que não exija uma sistematização. Sistema: a paixão da versão do complexo dada pela linguagem da oposição metonímica todo/parte, que acaba flertando com o totalitário. A matemática real não precisa apostar nas repetições vazias; ela justamente as estuda. Ela pode compor-se com um mundo-inteiro que é não-todo.