Owen, the barbarian

Owen believes that, for a couple to be together and become a family, one of them has to be a believer. Not both, not none, just one. He believes that if both are believers, attrition is inevitable, because of  the distinctive trait that makes a believer what they are. “On what does a believer believe?”, he said to me once, “They believe, on a very fundamental level, that they know something others don’t. Now, if two people of this kind get together, you can easily imagine that the place where they live is not a house anymore, it is now a courthouse, a place where conjugality is unsustainable. You would voluntarily go to prison after a large enough time spent in front of a judge and a jury, even if you are not guilty. In fact, many trials (and marriages) have ended this way”.

And he kept going: “Another problem would arise if both aren’t believers. Now, the thing is, human beings are complicated. You see, not believing isn’t as easy as it may seem, there has to be a motivation behind it, and the motivation usually is an idea of freedom. Not freedom itself, obviously, but an idea of it, which is also an idea of power. Of course, two people that embrace such way of thinking on a very fundamental level, can’t be married to each other, they just can’t. At least not for a very long time, with one possible exception: the presence of very strong and concrete forces keeping them together against their will – and there are a few situations that are known to have justified marriages of interest, everybody knows that.”

Then he paused and, meditatively, added: “On the other hand, if just one of them is a believer, that’s when things get interesting. First of all, you would think this would make it easier to make decisions, but you’d be wrong. It just makes it, as I said, interesting. Logic, as a problem and a game, begins when belief meets disbelief. Of course, a third position may eventually disrupt this rich dynamic. Ironically, a third player is also needed as a catalyst, to make it work in the first place.” I thought he was becoming a little bit cryptic and waited for him to clarify, but he didn’t. After a moment of silence, he just said goodbye and left.

But that got me thinking. In the beggining there were communities of power (communities of land and blood: tribes and clans), because it was not as easy to share and preserve knowledge. Then, when it did become easier, communities of belief took over the world, and shaped it as it is today. “Knowledge is power” – a deliberate oxymoron – was one of their mottos; “truth will set you free” is another one.

What we see now is a ressurgence of communities of power, but in an interesting way: they do not compete with the existing communities of belief, they complement each other. Even if relatively emancipated from their “rivals”, communities of power do not scale easily, which makes them (as always) vulnerable to degeneration, and even more so in a world of ever larger quantities and ever higher speed, so they had to develop containment strategies based on “borrowing”, or parasiting existing hierarchical structures to their own benefit, without getting encumbered by them. On the other hand, communities of belief have at last acknowledged that the world has become too interconnected for their expansionary drive to be exerted without safeguards: it is just too dangerous (which is why they had to give up their dominance, by the way). So what did they do? Well, they have an advantage, one that could prove decisive at the juncture where we are today.

Believers can silence.

Prezado aluno:

Você será avaliado pela sua escrita. É isso, nada mais.

Você não será avaliado pelo que você fala, ou pelo que você faz, nem pelo que pensa (ou seja, pela sua presença), a não ser na medida em que esta fala, esta ação, ou estes pensamentos, se convertam em um registro escrito, que deve ser público. Por exemplo, o seu comparecimento às aulas produz um registro escrito; uma performance teatral deve ser avaliada in loco, na forma de um registro escrito, na presença de testemunhas, o mesmo vale para uma defesa de tese de doutorado, ou para um exame feito à distância, pela Internet. Um filme, por si só, não é um registro escrito, mas o seu roteiro é, e o seu storyboard também. Uma máquina, por si só, não é um registro escrito, mas o seu projeto é. O escrito pode começar antes, e deve terminar só depois do acontecido, do acontecimento, ele vem sempre tarde demais, e não há outro jeito. E o escrito tem que ser escrito com símbolos que não significam nada, por si sós. Com traços, que são como golpes. São os acontecimentos… da escrita. É em nome deles que as crianças, mesmo no tempo dos computadores, dos tabletes e da Web, precisam aprender a escrever com canetas, e pintar com pincéis.

Sendo público, isso não implica que o registro escrito deva estar disponível a qualquer um, a qualquer momento. Significa apenas que ele não é privado, e também que a sua guarda e utilização obedecem a regras estabelecidas previamente em legislação ou contrato (que também são documentos públicos, e por aí vai).

Voltando ao nosso assunto: acima de tudo, você efetivamente não será avaliado na medida do que você sabe, nem do que você “realmente” sabe. Que você suponha ser dono do que pensa já é uma proeza, ainda mais se acreditar que os outros deveriam adivinhá-lo. Que você imagine aprender sem estudar (quando o que importa mesmo é o estudar, não tanto o aprender), é uma quimera. Ao escrever, as coisas inevitavelmente mudam, e é talvez por isso que você recuse o exercício. É possível que você tenha desistido de acreditar nas avaliações – e até de se preparar para elas – por conta dessa sensação de injustiça, de desonestidade, de “nada a ver”. Vou dizer uma coisa que poucas vezes se diz, mas que se sabe: as provas não são feitas só para avaliar. Elas são feitas também para desafiar, provocar, colocar em cheque, o que só se pode fazer se a coisa for a sério. A sério, mas não mortalmente. De maneira mitigada, portanto (espera-se): não estamos no ofício da tortura ou da execução. Enfim, isso quer dizer que as provas são feitas também com o propósito da auto-avaliação, da verdadeira auto-avaliação. Aquele conhecimento que você adquiriu porque errou não será reconhecido (a não ser por você mesmo, essa é a ideia), e é assim que tem que ser. Até aí é como um jogo, a derrota faz parte, mas a eliminação, não. É preciso que a escola tenha condições de separar esse reconhecimento que é da ordem da vitória no “jogo” da avaliação, do reconhecimento que ela confere para outros fins sociais – para outros fins… fatais. Isso, entretanto, é uma outra história, voltemos ao nosso assunto.

Como os professores são, e devem ser, seres de afetos (e o dia em que robôs forem professores, será o dia em que eles tiverem se tornado suficientemente humanos, o que pode perfeitamente acontecer), é inevitável que os seus afetos em relação a você interfiram na avaliação do seu escrito. Não é exatamente do interesse do professor que isso aconteça, acredite. Entretanto, a bem da verdade, é preciso dizer que – como aliás acontece em todas as profissões – nem todos os professores estão confortáveis na posição. Felizmente, porque os escritos são públicos, não se está completamente à mercê.

Agora vem a parte mais difícil. Um registro escrito é o que é porque não precisa mais da companhia do autor. Ele diz o que diz, não o que o escritor “quis” dizer – aliás, ele frequentemente diz o que o escritor não queria ver dito, mas lhe escapou por entre os dedos. É possível que você esteja acostumado a escrever mensagens de e-mail, torpedos, posts em blogs ou redes sociais, enfim, é possível que você esteja acostumado a comunicar-se “por escrito”. É possível até que você se sinta à vontade para expressar-se sem cuidados, nesses meios sociais, ser “autêntico”.  Olha só como isso acaba sendo complicado: nem tudo o que está “escrito” com letras é propriamente um escrito. Um escrito é o que é porque compromete o autor, na medida em que não pode ser apagado, e aí nem tudo que está codificado vale.

É na medida em que o escrito compromete, responsabiliza, que ele também dá poder, e pode trazer perigo. Uma coisa vem com a outra. E é por isso que o seu professor insiste tanto em que você escreva com cuidado. E é também por isso que o seu texto vai ser lido, pelo professor, como se ele não o conhecesse. Um professor é alguém que faz esse trabalho, o de facilitar o trânsito da sua identidade privada para uma identidade pública. Graças a esse trabalho é que você tem um rosto. Quem nunca foi à escola, nem que seja para fugir dela (o que às vezes é o indicado, mas é preciso estar à altura), vai ter que fazer o seu rosto de outro jeito, pode ser muito difícil, pode ser impossível. Quem passou pelo processo tem agora uma cara que pode ser dada a tapa, pode se oferecer à vida na cidade. É por isso que o trabalho do professor é difícil, não porque ele tenha que estudar muito e “saber passar” as coisas que sabe. Aliás, nos tempos em que vivemos essas coisas não têm mais o valor que já tiveram.

Se você deixa que te escrevam sobre a própria pele, já adivinha o poder da escrita. Escrevesse na pele com a própria mão, isso seria notável. Escreve no papel, escreve no mundo inteiro, a pele é escassa.

Ça n’est pas une Monadologie

Dizer que o símbolo é o que é por não significar, implica que o símbolo não pode ser verdadeiro nem a si mesmo, ainda que seja apenas um ponto (mas se for um ponto, o que será isso, afinal?). Existe entretanto a imagem do símbolo, e também a suposição insistente de que uma certa imagem, ou que um certo modo,  possa remeter ao que seria a substância do símbolo. A suposição faz parte do jogo; a sua realização, não. Amamos acreditar que o jogo se desempata, um dia, mas a vitória da imagem o que faz, imediatamente, é ressuscitar o símbolo. O bezerro de ouro foi "morto" antes do retorno de Moisés, como gesto sacrificial – sacrifício do próprio sacrifício –, e só então pode ele voltar com a palavra (e quantas vezes isso terá sido ensaiado, sem sucesso…) A vitória do símbolo, por outro lado, é como a vitória do próprio troféu, que ganha a si mesmo. Afinal de contas, é cansativa a disputa, e tola. Essa é uma ilusão da qual a filosofia, por muito tempo,  não pôde prescindir. Esse tempo, entretanto, já passou.

Mais uma vez, ajuda o exemplo da origem do olho nos animais, e de como ele se torna um órgão, de como o ouvido é um quase-órgão, de porque o tato, o olfato e o paladar permanecem sendo tecidos, de como a propriocepção, a cinestesia, e outros quasi-sentidos, nem tecidos específicos formam, e, finalmente, de como se pode pensar em um continuum que segue a direção de uma semiótica intercelular, depois molecular, etc. É tendo em mente esse continuum que retornamos ao olho, e ao olhar. Isso, entretanto, também não é uma fenomenologia.

Tudo isso então, para dizer que o olho serve para não ver. Mostrar algo, então, é o mesmo que fazer cerrar o olho. E, por isso, todas as artes do espetáculo estão hoje perdidas na sua própria abundância. Assim, para convidar a pensar não é preciso ensinar, basta cantar uma cantiga.

É para ver que, hoje, a filosofia, a literatura, e também a psicanálise (e outras práticas do "espírito"), são tudo, menos científica e/ou tecnologicamente ingênuas.

Constantes, hoje (hoje)

  1. Ao chegar a um certo momento da infância, se dá a saber aquilo de que se gosta no outro, senão o próprio gostar-de, transitivo, como potência.
  2. Um adulto pode ter filhos, e dá-se conta que, independente do desejo e do amor pelo outro (cônjuge ou não), existe a perspectiva de um amor pelos filhos, que é facilmente maior: num tempo em que os saberes da morte (como, porquê, quando) não estão mais dados – essa é a novidade –, não só, mas especialmente porque os filhos são escassos, é natural que a relação com eles assuma o primeiro plano.
  3. Uma criança tem uma casa. É em torno da casa que se faz (ou não) o casamento dos pais da criança, e a montagem da família ampliada vai se enraizar também ali. Mesmo sem criança, um casal que faz uma casa, o faz em nome de filhos, mesmo que não saiba. E mesmo vivendo sozinho, é em casa (sim, nessa casa onde estaria possivelmente uma criança) que as coisas acontecem, mais do que na rua, por várias razões.
  4. De uma casa se faz outra casa. Do outro se faz outro ainda. Essas coisas só compõem uma estrutura mediante um investimento massivo que, por ser deficitário, não se sustenta (embora possa talvez orgulhar a alguém). Não fazendo estrutura permanente é que podem, no entanto, sistematizar-se, diferenciar-se, continuar.
  5. Conclui-se que um amor não precisa ser feito de ilusões pré-prontas. Ele pode ser “realista”, sem perder a graça, se estiver dado, e sabido, que há uma luta. Essa luta não precisa ser desleal, desde que certas questões estejam respondidas (poucas, mas importantes), e desde que a escolha das armas seja feita na presença da mediação adequada, que é algo que é necessário providenciar.

Sabendo disso antes, fica muito mais fácil.

A Era do Meio (A Era do Desentendimento)

Há menos “sujeito” no “outro” do que deveria, do que se espera. Ele está lá, sim, não se tenha dúvida disso, mas é precário, deficitário. Românticos por um lado, e racionalistas, por outro, já lucraram muito com esta constatação, que mantêm (por razões óbvias) em segredo, mediante o qual sustentam o seu pseudo-antagonismo. Românticos e racionalistas, o que fazem, é promover, seja o sujeito (que deveria estar, digamos, mais generosamente, lá, onde é avaro), seja o seu suposto rival, ao qual também supõem poder reduzir, não tudo, mas tudo o que importa.

Na sociedade de massas, às mulheres foram atribuídos os encargos, as necessidades, mas não a responsabilidade. Isso é o que as torna mulheres, desde então: quando não estiverem mais sob o jugo da necessidade, não mais terão esse vínculo à sua disposição – vale lembrar que isso é, com efeito, possível, hoje, como nunca antes.  Repare no único desmentido que, ao menos até hoje, valeu para o postulado que começa esse texto (o de que há menos “sujeito” no “outro”, do que deveria), que é o da relação da mãe com seu primeiro filho homem. É a esse sucesso, único, que, modernamente, se reportam todos os outros fracassos humanos; é nele que reside o túmulo da vontade da mulher, e o túmulo do discernimento do homem.

A partir disso, a mulher teve que ser +sujeito para o homem (o que lhe custou caro), e o homem teve que oferecer o -objeto à mulher (o que também lhe custou, e ainda custa, caro). Essa é uma divisão do trabalho relativamente nova: ainda estão vivos os sinais de um tempo em que cabia a um único estamento (o dos “melhores”) ambos os papéis, a saber, o de humanizar o homem e o de humanizar o mundo. Esse tempo, por sua vez, também não é tão antigo assim, mas essa é uma outra história.

Os homens, agora que a divisão do trabalho simbólico está em movimento, estão na defensiva. Imitam compulsivamente qualquer coisa que lhes faça esquecer a responsabilidade: crianças, adolescentes, mulheres, seus pais, outros homens. Adotam uma série de condutas anestésicas, com o objetivo de escapar da dor que produz a constatação da própria ilusão. Por último, simplesmente fogem da própria fotografia, do próprio nome escrito no papel, da própria assinatura, à espera de que “isso” passe. Repetem incessantemente suas queixas ao feminino. São as velhas queixas à mamãe, agora quase sem disfarce. Ainda que não fossem: não é o feminino que põe em cheque o masculino.

Também é preciso dizer que, por mais que aumente o volume das acusações, por mais que se empilhem indícios de um suposto devir caótico do mundo, o feminino também não será posto em cheque. O feminino não pode ser responsabilizado pelos problemas do mundo, é mesmo o masculino em cada um de nós que vai receber esse ônus, de acordo com a lei que ele mesmo representa. Lei essa que permanece eficaz, mais eficaz do que nunca, diga-se de passagem: a busca da memória, a reconstrução da família e das tradições (inclusive de algumas categorias muito…incômodas), mais intensa que nunca, o testemunham. De onde se tira que a ultrapassagem da família burguesa de duzentos anos sinalizou a queda de um regime simbólico de milênios? Ainda mais: na presença de outros regimes mais antigos, imemoriais, plenos de vitalidade? Se as mulheres ainda se regozijam de sua posição de mero porta-voz da lei, serão evidentemente desconfortadas dessa posição: a responsabilização recairá também sobre os seus ombros; as representações não podem ser as mesmas, não podem ser tão fáceis de desmascarar.

É por isso que todos os que querem a igualdade defendem ao mesmo tempo as distinções legadas. Todas, menos uma, escolhida a dedo: a que convém à sua máscara. É claro que isso não pode funcionar, e não é isso o que interessa. O que poderia funcionar é a renúncia à busca de uma plenitude do sujeito, mas isso é um aprendizado ao qual apenas começamos a nos acostumar, os massistas, os do ocidente, os do oeste. Esse é um assunto a ser tratado com as crianças.

Ocuppy Wall Street

The mind and the body have different goals, and compete for the same source of energy. To put it more properly (now that I got your attention) the “brain” has different systems, which have contradicting goals, and compete for the same source of energy. Oddly enough, similar “brain systems” of different bodies may be (and indeed normally are) more closely related to each other than they are to other brain systems, of different kinds, that belong to the same body – taking the term "body" for what it’s worth, possibly not much.  That doesn’t mean they sort of  “team up”, as if they were individuals in a democracy. Brain systems can not be defined by sentences like “the purpose of this system is…”. A brain system to which a definite purpose can allegedly be assigned is either irrelevant or a testimony to the stupidity of the attempt. Brain systems can only admire, and be admired. By the way, most of what I’m trying to tell you here requires a new understanding of cooperation, one that is not based on social contracts, binary (or n-ary) relationships, and ordinary game theory. One that is based on the understanding of life, of being (yes, I’m going philosophical) as struggling.

So what happens is that quasi-autonomous brain systems cooperate, regardless of corporeal boundaries (or phenomenological boundaries of any kind, for that matter), because they can’t help it. This is something that can only be contemplated in a  historical perspective, away from all noisy propositions of final cause, teleology and design. What we call language, and whatever laws it embodies, is the product of an ongoing and constantly renewed armistice, not of a contract. It is this armistice that matters, this is what lasts. Until it doesn’t.

Disclamer: I am not talking about memes, this is a competing framework, don’t insist. On the other hand, if you really need to insist, go ahead: it really doesn’t matter. It may also tempt you to think of brain systems as parasites of the bodies they inhabit. It is my contention that that’s not the case, and that this is just another – rather useless – metaphor. What is at stake here is a different view of the time frame where all this cerebral dynamic takes place.

I said, on an earlier post, that we now need to legislate on reality. That was obviously a provocation: as in fact we cannot do this, the obvious alternative is to reduce the level of agitation. Keep reading.

Power does not comes from the hability a collective brain system has to command a substratum that has the longest life span. Power comes from where there is no agitation, no entertainment, thus, no boundary. To assume that all that is human is pathetic is a lazy, unwarranted notion. Looking for dignity in human form is not without purpose, even though it can be said that human dignity is not special, or superior to dignity in any other form, being form itself a consequence of dignity, not the other way around.

So:

It is useless to try,

It is useless to push,

It is useless to expect, and so it is useless to long for,

It is useless to negotiate,

It is useless to plan, and it is useless to rule.

O fim da tele-visão

Calar a voz das armas (mas não a violência armada) parece ser um projeto bem sucedido dos movimentos minoritários recentes, me refiro aos que têm como solo comum um certo pacifismo, especialmente os feminismos (quase todos) e alguns anti-colonialismos. Não se sabe também até que ponto as armas calaram a si mesmas, pelo seu próprio poder de destruição sem retorno, que é uma das grandes novidades do século XX. Tenho minhas dúvidas sobre a hesitação moral do Homem diante da destruição do mundo pelo arsenal atômico – ou por outros meios. Acredito mais na constatação de que a imagem de uma destruição total estragaria o jogo dos senhores da guerra, ela teria perdido a graça (nos dois sentidos). Isso não nos livra, é claro, de um acidente catastrófico, do qual, aliás, é sabido que já estivemos bem perto, e nunca estaremos longe o suficiente.

Talvez seja desnecessário dizer que a eficácia dos movimentos minoritários flerta com o fascismo, não por que um espectro maligno assombre qualquer tomada de poder (o que pode ser verdade), mas porque o fascismo é o mecanismo orientador da sociedade de massas (que a globalização por enquanto reforça, não solapa), e não se pode estar muito longe dele, ao ganhar eficiência nela. Nesse meio tempo, a guerra convencional – que segue convenções – sossobra (ao menos como parte do circuito das malhas do poder), embora o mesmo não se possa dizer da violência pura, que cresce. É que essa violência, agora também minoritária, não desafia o mundo concreto e cotidiano da vida minoritária, onde os novos movimentos políticos buscam a sua energia. Uma mulher atingida por uma bomba aleatória (ou que explode a si mesma em um atentado) não escandaliza o minoritário-em-nós; uma mulher assassinada por um estuprador (ou que abandona uma criança na lata do lixo) faz parte de uma série, e isso sim pode escandalizar.

No modo da generalização, aplicada ao método sociológico, se tem a perspectiva da ideologia, portanto do macrofascismo. Os micro- ou proto-fascismos de minoria se mantêm ativos em função de dois ingredientes: no seu próprio código está a impossibilidade de um crescimento ilimitado, já que operam com sinais fracos, e às suas franjas esses sinais se perdem; por outro lado, viscejam exatamente pela eliminação da concorrência macro-fascista, ao produzirem ingredientes que lhe são tóxicos. O combate às séries ilimitadas (às regras de dominação) se desencadeia a cada alerta da sua possível constituição, e se faz pela remissão ao concreto (aos controles corporais, se preciso), e ao particular, na forma do combate ao devaneio. O que resta do metabolismo da lei simbólica imperial (reificada, lei-imagem) é como a arquitetura de uma cidade antiga, na qual não se mexe, apenas se usa, e restaura, quando necessário, enquanto por ela se faz perpassar as redes de (in)formação que compõem a economia do imaginário, pela qual fluem os sinais fracos. Até quando isso vai durar, é a pergunta.

É verdade que a sociedade de massas moderna se constrói a partir de uma conversão da heráldica de uma sociedade de soberania patriarcal. É verdade também que o macro-fascismo é muito mais facilmente concebível nessa matriz masculinista do que numa outra (embora isso esteja longe de ser impossível). Isso não implica, entretanto, que se possa fazer a equação masculino=fascista (já que isso talvez implicasse a equação lei=fascismo, em que muito poucos estão dispostos a apostar), nem que se possa julgar que, numa sociedade de minorias, a masculinidade não possa organizar-se enquanto tal, até porque já o fez no passado, espontaneamente, repetidamente – religiosamente. Enquanto aqui estamos, convém lembrar que uma sociedade de micro-fascismos meta-estáveis não é necessariamente uma sociedade em equilíbrio. Aliás, ao que tudo indica, o que temos está realmente muito distante disso, ainda que a perspectiva de um colapso não dispare os alertas dos movimentos minoritários. Aliás, o que nos vai dizer o real, se perguntado, é que o sistemas em equilíbrio estável não são mesmo da sua alçada.

Quanto ao negro, portanto – evocamos Stendhal – é fácil falar (lembremos de Stálin, que perguntava quantas divisões tinha o Vaticano). Mas e o vermelho? Uma primeira observação reveladora: ao festejar a laicização da sociedade contemporânea, de matriz eurocêntrica (a China, que já era laica, ficara de fora, e só agora começamos a entender o alcance disso – mas essa é uma outra história), os movimentos políticos, de todos os matizes, acabaram por posicionar-se estrategicamente na direção dos estados nacionais. Ora, o estado pôde, até certo ponto, subjugar as hierarquias religiosas, mas não a religião propriamente dita. Eis então o paradoxo: os movimentos religiosos se viram livres para operar inteiramente ao largo das pressões da sociedade organizada. A ideia de que eles teriam sido absorvidos pelos próprios movimentos políticos, na sua dimensão afetiva e comunitária, se revela tão ilusória quanto a visão de que eles teriam sido “resolvidos” pelo processo do esclarecimento. Foi só o tempo de as fissuras no equilíbrio de poder internacional se mostrarem, e já vemos o quão frágil era essa resolução. É claro que a primeira reação é entender esses novos movimentos religiosos como anacronismos, mais ou menos violentos, mais ou menos “pós-modernos”.

Os fascismos são movimentos contra a lei, em nome de uma ordem, paranóica (macro) ou perversa (micro) – cuidado com as equações (cuidado com os regozijos): não vale paranóia=fascismo, ou perversão=fascismo. A lei só pode ser a lei do significante, que é aquilo que não significa por si, apenas na sua linhagem. A ética do significante é 無為 (sem-agir). É óbvio que isso não será visível, e é evidente que as tele-visibilidades sofrerão.

Não é que o masculino seja a lei; ao contrário, a lei é que define o masculino. É nesse sentido que ele define o humano, ou seja, no momento em que ele projeta um destino – para além do qual não há possibilidade –, e não uma liberdade. Tirando a dúvida: não, isso não precisa fazer Édipo, ok? Também não vai fazer um plurimorfismo caleidoscópico. Fixam-se os novos micro-territórios. A sorte está lançada.

Da matemática como contação de histórias (4)

Imagine que o nosso problema é produzir uma série numérica qualquer, de comprimento ilimitado. Estamos tratando de um conjunto enumerável, nada de outro mundo. A primeira ideia é ser capaz de produzir cada valor a partir do seu ordinal na série, ou seja, produzir o elemento ai a partir de um procedimento computacional construído com base na definição de uma função de i. Essa função pode envolver uma caminhada pela série, elemento a elemento, ou um outro tipo de cálculo, mais ou menos direto. Um exemplo do primeiro caso aparece na tabela a seguir:

i ai=i2 bi=ai+1-ai ci=bi+1-bi di=ci+1-ci
1 1 3 2 0
2 4 5 2 0
3 9 7 2 0
4 16 9 2 0
5 25 11 2 0
6 36 13 2 0

Nela, vê-se que o valor de qualquer elemento da série dos quadrados pode ser obtido multiplicando cada ordinal por ele mesmo, ou através de um procedimento baseado no método das diferenças. Assim, 6 elevado ao quadrado é igual a 6×6, mas também é igual a 25+11, e 25 é igual a 16+9, e 16 é igual a 9+7, e assim por diante (vejam os analistas mais atentos que a derivada de i^2 aparece na segunda coluna, na terceira coluna aparece a segunda derivada, e assim por diante). O esforço computacional necessário para obter o resultado de x multiplicado por ele mesmo não é significativamente diferente do que é necessário para gerar a série do seus antecessores, um por um, até chegar a ele, numa sequência de somas. Em outros casos a diferença existe, na comparação entre diversos métodos singulares. De todo modo, é possível compreender que, para cada conjunto recursivamente enumerável, exista uma suposição quanto ao tempo necessário para obter cada elemento, com base na estrutura do conjunto, na característica da sua ordinalidade. Esse tempo pode não variar, mas sabemos que normalmente varia. Digamos que cada elemento tem  (ao menos hipoteticamente), pela sua natureza, uma complexidade intrínseca, uma organização própria. Digamos também que seja comum que o crescimento da ordem de complexidade do número (que representa também o seu tempo intrínseco de computação) acompanhe a ordinalidade do conjunto. Nossa pergunta passa a ser, então: haverá um momento em que os recursos (de tempo e/ou espaço) necessários para calcular o próximo número de uma série sejam grandes demais para todos os fins práticos? A busca de uma resposta será diferente para cada série, ou para cada classe de séries. A questão pode ser recolocada nos seguintes termos: o limiar após o qual o problema se torna intratável – dadas as condições materiais e técnicas presentes – está ou não situado num ponto em que algum interesse prático ainda é afetado?

Todos os problemas que consideramos intratáveis são problemas para os quais o número de elementos que atraem o interesse é proibitivamente grande. São intrinsecamente intratáveis, mas por razões, digamos, fenomênicas. E há problemas que são considerados intratáveis porque os métodos disponíveis atualmente permitem supor que ao crescer o número de elementos, o consumo de recursos cresce de um modo que é incomensurável com a crescimento suposto da própria capacidade de calcular. Há, evidentemente, um componente metafísico oculto na suposição de um limite para o crescimento da capacidade de calcular. Essa limitação estaria ligada à exigência de que ela permaneça, no seu crescimento em capacidade, estruturalmente semelhante a si mesma, de algum modo. Em outras palavras, exige-se que a máquina possua uma assinatura, um registro imaginário.

Esse é o contexto da chamada tese de Cobham, que estabelece a diferença entre crescimento polinomial e crescimento exponencial. Conjectura-se que o exponencial corresponde ao polinomial não-determinístico, mas não sabemos se os problemas que têm solução polinomial não-determinística não possuem também solução de complexidade polinomial determinística. A investigação dessa questão pode exigir um enquadramento teórico muito diferente daquele com que estamos acostumados, a tal ponto que a questão possa ter que ser inteiramente refeita, em outros termos. De todo modo, supomos que por trás dessa cortina metafísica estaria a suposição de que uma máquina à qual corresponda um registro imaginário não pode gerar computações de complexidade mais-do-que-polinomial. Ou seja, de que computar uma série cujo crescimento seja exponencial, no caso geral, requereria uma máquina que se tornasse irreconhecível ao final do processo (e o tipo de mundo em que essa máquina pudesse existir certamente não seria como o que… imaginamos).

Nos exemplos a seguir, como no anterior, é sempre possível calular ai a partir de i, diretamente, num tempo comparável ao tempo necessário para calculá-lo caminhando ao longo de toda a série. Digamos, entretanto, para efeito de ilustração, que isso não fôsse possível (ou seja, que o único método viável fosse o realizar a série de somas).

i ai=3i bi=ai+1-ai ci=bi+1-bi di=ci+1-ci
1 3 6 12 24
2 9 18 36 72
3 27 54 108 216
4 81 162 324 648
5 243 486 972 1944
6 729 1458 2916 5832

No caso de n^x consegue-se “achatar” toda a série em n-1 etapas (no exemplo acima, tomando 3, 6, 12, 24, etc. como a nova série a ser reduzida, basta mais uma etapa – concretamente: mais uma planilha); com x^x, o número de etapas cresce a cada valor de x, produzindo uma espiral infinita, que anda para a frente e para trás (dá uma olhada). Acontece algo muito interessante para além – com (x^x)^x, por exemplo: nem mesmo propriamente a espiral,  já se está quase (cuidado com a leitura da planilha, aqui as dificuldades de representação com precisão adequada começam a pesar seriamente) no lugar de destino desde o início. Aí nos situamos praticamente no terreno da impossibilidade de uma assinatura, de um diferencial simbólico que servisse como registro do/no imaginário. Essa seria uma alegoria do não-determinismo irredutível. Para completar o quadro: autossimilaridade perfeita é a singularidade e^x. Até aí há comensurabilidade, o sentido é trivial.

Daí se pode contemplar o que motiva o salto de Cantor: porque não estipular logo a função finito-infinito? E Cantor então a produz, de dentro da matemática.

* * *

Falei que buscamos realidade, fugindo do real. Falei também que ainda buscamos o real, no jogo e na ficção. O problema talvez esteja em que o real, escrito, apodrece. Perde dignidade. Pede, então, realidade. Funciona assim: amo o real, mas porque aprendo a enlaçá-lo em símbolos, e os símbolos são imagens, mas enquanto imagens são efemérides.  Esse é o nômade, em toda a sua dignidade.

O civilizado, porque escreve, é um perigo para si mesmo, para a sua própria dignidade. A começar porque faz, das imagens, ídolos, justamente quando escreve as histórias desses personagens. As estátuas e os ícones são perigosos por causa das legendas…

Quais são as saídas? A iconoclastia parece ser uma, mas logo se vê o quão pouco trivial ela é.

Será possível encontrar dignidade na escrita?

Pudor, vergonha, responsabilidade. Não como versões de uma iconoclastia, de um medo da vida. Positividades, numa vida que se escreve dignamente. Morre o humano, neste super-homem? Claro que não, mas porque nada que vive realmente pode realmente morrer. Aliás, isso não é muito importante.

A consolidação dos valores intelectuais

A necessidade de dar uma forma perfeita a uma ideia, antes de publicá-la, é um despropósito. Na sua forma perfeita, uma ideia interessante já está inutilizada como móbile do discurso. Essa ideia não circula mais. O obstáculo a uma cultura do compartilhamento e da colaboração – o obstáculo à movimentação –, na sua versão atual, chama-se direito de autoria. Esse direito, que se apresenta como uma  perversão do direito de imagem – acompanhado pelo egoísmo intelectual que é seu corolário – substituiu o ganho de uma reputação como o tema central de uma economia simbólica que agora sabota a si mesma, em busca do último ovo de ouro da galinha. Em outros tempos, quando se debatia o papel dos intelectuais numa sociedade de massas, parecia que os valores intelectuais caminhavam num limbo, entre classicismo e utopia. A relativa inocência do acadêmico lhe permitia um estilo de manifestação mais despretensioso, que por isso mesmo estava livre para pôr-se a serviço das realizações mais ambiciosas. Livre da posição de sujeito do enunciado, ao cientista se colocava sempre o mesmo objeto, automaticamente: a Natureza. Hoje, o trabalho intelectual se apresenta enunciante, psicologizado, em todas as etapas do processo produtivo, que se adapta ao seu desenvolvimento, à sua ética. As coisas não vão  muito bem.

O argumento “dos mercados” para a manutenção do direito de autoria é, naturalmente, hipócrita (e, agora, suicida): “Como remunerar com justiça os gênios, os grandes autores, se desconectarmos o direito autoral da criação?” Ora, nunca se tratou exatamente de justiça – e especialmente não agora –, apenas de garantir um certo dinamismo ao modo de produção dos valores. O segundo argumento contra, é o reacionário, um morto-vivo: “Como evitar a perda de um senso comum, do próprio sentido, se não há mais uma hierarquia de valores estéticos, conceituais, lógicos?” Em um ponto, concordam os dois: o sistema de valores do capital industrial pressupunha uma lentidão característica na relação entre um centro e uma periferia, muito semelhante a uma hierarquia proposta por uma suposta tradição (e a tradição é sempre suposta). Estão desarmados os dois, e é o caso de entendermos por quê.

Em oposição à expectativa da maioria, a aliança entre esse individualismo cego (e a sua dinâmica dos vínculos identitários, a sua cansativa economia do imaginário) e aristocracia acaba produzindo um equilíbrio instável, na medida em que o processo de produção imaterial ganha velocidade, e escapa das resistências da produção material, ou seja, na medida em que o setor de serviços ensaia uma emancipação do restante da economia. Onde se imagina que serviço é objeto, que acaba remetendo a uma nova forma de mercadoria, pode ser agora justamente o reverso: é a mercadoria (que não mais se comporta de acordo com o sistema simbólico do dom) que vem a ser algo interpretável de acordo com o regime narcísico da soberania de si: vivemos comprando presentes para nós mesmos, que os “merecemos”. Onde se supõe que o funcionamento desse sistema de recompensas e valores leve a um regime estável, acaba havendo estagnação conservadora no valor das ideias-imagens e, consequentemente, deflação generalizada. As ideias, após mais trabalho, valem menos, justamente porque já estão sempre prontas demais, protegidas da própria destruição, que só acontece como catástrofe (vide Naomi Klein). A visão de uma “economia do espírito” é perigosamente anticapitalista.

O modo de produção em que vivemos, entretanto, ainda funciona com base na ameaça de morte simbólica (o desemprego e a depressão são dívidas, relações ainda de acordo com o modo de produção em série) a quem não produz, no registro do imaginário, o suficiente. É claro que o suficiente é um alvo em movimento, e por isso o mundo das imagens não pode parar de crescer. E é também evidente que aquele que já está simbolicamente morto nada tem a perder. No mundo em que vivemos o grande problema é, então, o excesso de imaginário, não a escassez. O problema é que, numa economia do imaterial, o problema da destruição do excesso de produção não tem solução óbvia.

Da matemática como contação de histórias (3)

Jogar um jogo em que se ganha ou perde envolve encantar-se com o acaso de onde virá o resultado, com o imponderável. É preciso dar uma forma a esse acaso, a graça do jogo e da sua regra está em que esse imponderável pode ser reencenado, repetidamente. O jogo termina, mas não o jogar. A vitória vem, ou não, mas o vitorioso é “herói” por sustentar a sua personagem enquanto vence. É que a vitória, que se concretiza apenas ao final, no entanto dobra-se sobre a duração do jogo: já se “sabia” dela antes, já se a pressentia. O fundamento do jogo está nessa passagem da vitória, de objetivo supremo, a mero pretexto, que retorna e se repete infinitamente.  A exceção são os mitos fundadores de cada jogo (a imagem de um tabuleiro, de uma mesa, de uma quadra, ou de um campo, evocam o Cosmos, e uma cosmogonia), e as grandes singularidades (os jogadores míticos, e as jogadas memoráveis), mas esses são os elementos do pano de fundo, parte do jogo e do jogar. É claro, nem sempre se está a salvo da degeneração, a salvo do excesso da vontade que imagina uma vitória última, uma eternidade sem retorno, e é capaz de sacrificar o próprio jogo nesse movimento.

Tudo isso parece marcadamente distinto daquilo que movimento o universo da ficção e da representação teatral. Aqui parece ocorrer justamente o inverso: um roteiro preside o espetáculo, especifica a ordem dos acontecimentos, em detalhes. Sabe-se o que vai acontecer – está escrito – mas, durante o desenrolar da narrativa, a ação do espectador suspende o tempo dos acontecimentos, o converte em uma espécie de instante eterno, ou pura duração, que faz com que o conhecimento do final não sirva como prejuízo da sua reencenação, mas ao contrário, opere a seu favor. Ao encontro do real, para longe da realidade: é porque se sabe o que vai acontecer (ou porque alguém sabe, no caso das histórias de suspense, mistério, fantasia – e a comédia e o improviso jogam com esse saber, como um tempero ácido que acentua o gosto)  que o efeito do intempestivo se dá. É claro, nem sempre a salvo do delírio que acaba por anular a ficção, convertendo o roteiro em palavra sagrada, revelação, verdade estéril.

O que nos leva a essa distinção entre jogo e teatro é uma rivalidade que veio a existir – e que pode deixar de existir, porque não é um princípio abstrato. A pergunta que se faz aqui é: por que o prazer que se tira desses dois modos – da ficção e do jogar – é hoje tão distinto, e tão contraditório? É estranho que  esses dois modos venham a discordar entre si, venham a estabelecer uma divisão das platéias em dois grupos rivais (por assim dizer), já que um olhar mais atento vai reparar que, nos bastidores e nos porões das arquibancadas, se alimentam um do outro. Estarão, ambos, competindo pela realidade, contra a própria ficção de que se alimentam?

A premissa do jogo que se ganha-ou-perde é uma renúncia subjetiva. Ela se dá no tempo da aceitação do resultado, cuja essência está em não ser garantida por uma personagem singular, mas num fora-de-sujeito. O valor de troca é um exemplo de funcionamento desse princípio de jogar: aceita um valor de troca quem aceita a inexistência de um agente arbitrador dos preços, e isso não é trivial, nem está dado. No limite, qualquer transação envolvendo uma corrência sem valor de uso envolve uma renúncia subjetiva, na qual nem todos embarcam, ainda que o mecanismo acabe funcionando por vias alternativas. Entrando num estabelecimento comercial, ofereço ao funcionário do caixa uma certa quantia em dinheiro. O troco é dado como certo pela visibilidade do preço, e pela aceitação de que a diferença entre a quantia oferecida e o preço pode ser obtida mediante a aplicação de um procedimento cuja certificação está disponível a qualquer um, a qualquer momento, pela confrontação com outro procedimento semelhante. Por exemplo, digamos que o preço é R$ 13,50, e entrega-se uma nota de R$ 20,00. Sei o que devo fazer, porque domino mais de uma maneira de obter o resultado, e sei que todas são equivalentes, mas isso implica que eu aceite que nenhuma delas seja, por si (pelo puro gesto, que seria então um rito), uma garantia necessária e suficiente, autônoma, eterna. Mas eu só sei que nenhuma forma de resolução particular é suficiente se tomar como premissa a inexistência de qualquer garantia intrínseca de valor, para qualquer transação que envolva um valor de troca. Quer dizer, isso só funcionará para  mim, se tiver como certo que é assim que meu “adversário” também pensa, ou deveria pensar. Que, para além disso, é assim que todos pensam, porque é assim que se pensa.

Conclusão: joga jogos finitos quem não pensa em ganhar nada que tenha real valor com isso, a não ser a tranquilidade subjetiva que vem da premissa “pacificadora”: todos os demais também não ganharão, ninguém ganha nada real, nunca.

O caso da arte teatral é exatamente o oposto: desfruta de uma narrativa encenada quem supõe que os valores são fixados pelo roteiro, e não postos em movimento pela série dos procedimentos. Há também uma renúncia aqui: é a renúncia ao papel de roteirista, mas não à reivindicação do valor daquilo que se deu, ou daquilo que se recebeu, baseada no que está escrito.  O pão nosso de cada dia será dado, a cada um, conforme o seu papel. Retomando o exemplo anterior:

“Entrando num estabelecimento comercial…”

Depende: qual estabelecimento? Que relação se tem com o dono, com o balconista, com o funcionário do caixa? De que roteiro se está falando? De que personagens?

“O troco é dado como certo pela visibilidade do preço (…)”

A visibilidade do preço não é garantia, é apenas uma parte do cenário. Uma parte importante, claro. Igualmente importantes, por exemplo, entre muitos outros detalhes – pois é dos detalhes que se trata aqui: se as pessoas usam uniforme (formal ou informalmente: vale como uniforme uma etiqueta, digamos, “tribal”),  se o ambiente está limpo (ou não tanto, mas de acordo com uma certa concepção), o que diz a decoração, e assim por diante.

“Sei o que devo fazer, porque domino mais de uma maneira de obter o resultado”

Sei o que devo fazer exatamente porque não domino maneira alguma de obter o resultado (ou, o que dá no mesmo, domino uma ou mais maneiras, mas as tomo apenas como parte de um ritual, convenção, ou mandamento – do script, enfim). Sei o que fazer porque leio o roteiro, inscrito na situação. O roteiro pode ser adaptado, de acordo com linhas mais ou menos predefinidas, a partir de um repertório, que já está dado, e que é tabu.

Confio no ator que desempenha o seu papel, confio acima de tudo no roteiro, não nos procedimentos que se utiliza (que são apenas movimentos corporais). Meu critério é a obediência de todos ao princípio da narrativa, e a preservação do segredo e do mistério em torno dela. Usa-se uma aritmética de intensidades (muito, pouco, demais, suficiente), não uma teoria axiomática das quantidades, uma álgebra. E se o suficiente se revelar depois insuficiente, há possivelmente o recurso a uma cena de reivindicação e reparo da “injustiça”, e assim seguimos.

Pode surpreender – imensamente, até –, ao jogador de jogos finitos, que o seu domínio do saber seja inteiramente sem relação com um domínio do real, a tal ponto que o procedimento do ator/espectador teatral é mais frequentemente eficaz (no sentido coletivo, obviamente) do que o dele, nas suas iniciativas, ainda que se atenha a uma distribuição aparentemente muito rígida das relações, quase mecânica, ou seja, ainda que sua eficácia compreenda apenas um imaginário coletivo (o que, pensando bem, não é pouco). Ocorre que, mesmo estando preso a um roteiro, não está renunciando às suas habilidades espontâneas (mesmo as que não domine, ou não conheça), e também pode estar suscetível às variações do roteiro, já que o toma como vindo de fora. Ao voltar-se apenas para as ações que podem ser convertidas em morfismos, o jogador finito é um descobridor de relações, um criador de mapas, um crítico dos roteiros e dos valores, mas a sua eficácia também vem de fora (do coletivo), que é, afinal, de onde pode vir qualquer eficácia. O fato novo é que esse jogador, com toda a sua irritabilidade, pôde ser incorporado, com todos os seus arsenais, à narrativa de toda uma civilização, produzindo um (novo) mundo de valores. A isso temos chamado iluminismo, a solda entre o processo do símbolo (filho dos códigos da tradição e da soberania) e  a imagin/ação, entre o jogo e a narratividade.

Hipótese: o esforço do jogador finito é sancionado apenas porque abastece o imaginário teatral  de ferramentas simbólicas que servem à sua eficácia, estendendo-a a grandes grupos humanos. Isso acontece a despeito da reduzida (ou nula) consciência, desses beneficiários, dos procedimentos simbólicos que acabam adotando (aos quais tomam apenas como parte da “escrita”). Essa conjunção, entretanto, é uma cartada tipo “all-in”, em que tudo é apostado, e a perda, inevitável, é também total.

A matemática da computação é sobre a computação, não é, ela mesma, uma computação. Ela estuda a efetividade dos processos finitos, sem ser, ela mesma, devota dos processos finitos. Ela não se restringe à eficácia menor que se dá no plano teatral do imaginário, e que acaba sendo, então, apenas uma eficiência. Ela pode, por isso, prestar-se a estruturas narrativas menos rígidas, e uma compreensão dos procedimentos finitos que não exija uma sistematização. Sistema: a paixão da versão do complexo dada pela linguagem da oposição metonímica todo/parte, que acaba flertando com o totalitário. A matemática real não precisa apostar nas repetições vazias; ela justamente as estuda. Ela pode compor-se com um mundo-inteiro que é não-todo.

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