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	<description>Se não puder falar com ela, fale com a pedra</description>
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		<title>Da matem&#225;tica como conta&#231;&#227;o de hist&#243;rias (5)</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Apr 2012 19:03:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Obsidiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Hidrogênio]]></category>
		<category><![CDATA[matemática]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando um matemático contemporâneo se põe a fazer uma prova, seu procedimento difere daquele adotado por um matemático &#8220;antigo&#8221;. Talvez se possa dizer que os antigos imaginassem que a matemática se se liga a alguma visão, ou imagem, do eterno. De todo modo, é evidente que os contemporâneos se diferenciam por buscar realizar essa visão [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">Quando um matemático contemporâneo se põe a fazer uma prova, seu procedimento difere daquele adotado por um matemático &#8220;antigo&#8221;. Talvez se possa dizer que os antigos imaginassem que a matemática se se liga a alguma visão, ou <em>imagem</em>, do eterno. De todo modo, é evidente que os contemporâneos se diferenciam por buscar realizar essa visão do eterno, de modo que ela possa ser atribuída, ou implicada, por meio de uma escrita ou de um “dispositivo mecânico”, nas suas próprias formulações matemáticas, ou que, pelo menos, elas possam dar conta das condições de possibilidade dessa implicação – embora aí já não estejam situados estritamente no campo disciplinar da matemática.</p>
<p align="justify">A condição de possibilidade <em>do conhecimento matemático</em>, entretanto, não é a eternidade da formulação, mas a mera repetibilidade (e também a efetiva repetição!) da demonstração. E como a demonstração <em>terá que ser repetida</em>, é o caso de nos perguntarmos se a abordagem contemporânea (de uma formulação &#8220;sem pecado&#8221;) não seria, na prática, um desvio de rota improdutivo, um imenso engano. Se for esse o caso, há, de todo modo, um ganho no projeto da matemática contemporânea, que é a ruptura de todos os condicionamentos do exercício matemático à metáfora e à palavra de ordem. A aspiração ao eterno forçou a (tentativa de) remoção de todos os obstáculos conjunturais, de todos os vínculos históricos. Forçou a postulação de uma liberdade infinita no campo da expressão. Ao mesmo tempo, inclinou a pesquisa, por vezes, na direção do infrutífero, do desnecessário.</p>
<p align="justify">Seria o caso de, hoje, promovermos um retorno ao efêmero no campo expressivo, no âmbito da metodologia da pesquisa em matemática, sem perder de vista a liberdade superlativa dos &#8220;eternistas&#8221;, que, afinal, é também nossa herança. Esse retorno ao efêmero, ao contextual, ao circunstancial, não deve fazer pender a balança na direção oposta: é de um &#8220;caminho do meio&#8221; que falamos aqui. Não se trata, portanto, de um &#8220;abastardamento&#8221;, de um relaxamento de exigências sem uma contrapartida. A contrapartida é justamente o mandamento de que as definições e demonstrações só são tomadas como válidas no contexto de um processo contínuo de reproposição e redemonstração, que descreve uma linha de fuga, no plano de imanência do qual fazem parte a expressão e o conteúdo, onde a distinção entre sintaxe e semântica não é trivializada, muito menos idealizada.</p>
<p align="justify">Em benefício da computação isso (uma matemática &#8220;mestiça&#8221;) é pedido; graças à computação isso (uma matemática experimental) é possível.</p>

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		<title>Não me olhe</title>
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		<pubDate>Sun, 08 Apr 2012 00:50:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Obsidiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Água]]></category>
		<category><![CDATA[Jó]]></category>
		<category><![CDATA[olhar]]></category>
		<category><![CDATA[Parce mihi]]></category>
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		<description><![CDATA[A série das preces que pedem o olhar divino, ou que o testemunham, parece infindável. A das que pedem menos atenção por parte de deus parece não ter nenhum representante. Há, no entanto, pelo menos um exemplo importante, até mesmo essencial. Ele está em Jó 7, 16-21: Parce mihi, nihil enim sunt dies mei. Quid [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">A série das preces que pedem o olhar divino, ou que o testemunham, parece infindável. A das que pedem <em>menos </em>atenção por parte de deus parece não ter nenhum representante. Há, no entanto, pelo menos um exemplo importante, até mesmo essencial. Ele está em Jó 7, 16-21:</p>
<blockquote>
<p align="justify">Parce mihi, nihil enim sunt dies mei. Quid est homo, quia magnificas eum? Aut quid apponis erga eum cor tuum? Visitas eum diluculo, et subito probas illum. Usquequo non parcis mihi, nec dimittis me, ut glutiam salivam meam? Peccavi; quid faciam tibi, o custos hominum? Quare posuisti me contrarium tibi, et factus sum mihimetipsi gravis? Cur non tollis peccatum meum, et quare non aufers iniquitatem meam? Ecce, nunc in pulvere dormiam; et si mane me quaesieris, non subsistam.</p>
</blockquote>
<div id="scid:5737277B-5D6D-4f48-ABFC-DD9C333F4C5D:6c62b54a-2acb-422b-968a-76f32cf7c4d0" class="wlWriterEditableSmartContent" style="margin: 0px auto; width: 542px; display: block; float: none; padding: 0px;">
<div><object width="542" height="303" classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/0_dmQ7-_b-c?hl=en&amp;hd=1" /><embed width="542" height="303" type="application/x-shockwave-flash" src="http://www.youtube.com/v/0_dmQ7-_b-c?hl=en&amp;hd=1" /></object></div>
<div style="width: 542px; clear: both; font-size: .8em;">(A música cantada pelo Hilliard Ensemble é de Cristóbal de Morales, 1550-1553, Espanha. O saxofone é de Jan Garbarek)</div>
</div>
<p align="justify">Ironicamente, quase pode ser lido como uma oração do ateu convicto que fraqueja, e pede que deus se afaste dele. O <em>Parce mihi domine</em> não é o habitual “poupa-me do sofrimento do mundo”, mas é um “me poupe do teu olhar”. A bíblia de Jerusalém reforça essa leitura, na sua tradução direta do texto hebraico:</p>
<blockquote>
<p align="justify">(…) deixa-me, pois os meus dias são um sopro! Que é o homem, para que faças caso dele, para que te ocupes dele, para que o inspeciones cada manhã e o examines a cada momento? Por que não afastas de mim o olhar e não me deixas até que tiver engolido a saliva? Se pequei, que mal te fiz com isso, sentinela dos homens? Por que me tomas por alvo e cheguei a ser um peso para ti? Por que não perdoas meu delito e não deixas passar a minha culpa? Eis que vou logo deitar-me no pó; procurar-me-ás e já não existirei.</p>
</blockquote>
<p align="justify">A resposta a esse “não me olhe”, sabemos, vai acabar sendo um “cale-se”, e o prolongamento da vida de Jó, que viveu para ver até a sua quarta geração, <strong>mas não para sempre</strong>. Carl Gustav Jung coloca na conta desse livro insuportável a necessidade da vinda do Cristo, e, na continuação, do dogma da assunção de Maria. O livro de Jó, curiosamente, é o livro que permanece mais legível por todos e para todos, ele quase cai da encadernação e sai andando sozinho. É interessante que, justamente quando está mais soterrado de “leituras complementares” evangelizantes, ele lhes dá a volta, e as converte em notas de pé de página.</p>
<p align="justify">Se hoje trazemos a pele marcada como para uma guerra, ou se nos vestimos e nos adornamos de maneira desafiadora, ou,  de outro modo, se nos escondemos do olhar dos outros, ou ainda se o procuramos sem sinceridade – só para depois nos queixarmos de que ele não nos encontra, apesar do esforço… –, talvez estejamos dizendo a esse olhar perseguidor que nos deixe em paz. Mas então Jó pode ser o nosso parceiro, não?</p>
<p align="justify">Enquanto escrevo, na vizinhança toca um lindo samba triste.</p>
<p align="justify">Boa páscoa.</p>

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		<title>道德經 十七章</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Mar 2012 13:03:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Obsidiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Água]]></category>
		<category><![CDATA[dào dé jing]]></category>
		<category><![CDATA[Tao]]></category>

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		<description><![CDATA[十七章 太上，下知有之。其次，親而譽之。其次，畏之。其次，侮之。信不足焉，有不信焉。悠兮其貴言。功成事遂，百姓皆謂，我自然。 17 no princípio, era o não saber depois, afeto e apreço depois, medo depois, desgraça crença não é certeza presença não é crença palavra que se preze faz pensar&#8230; do concretizado há sequência para as pessoas comuns, faz sentido: “por mim é assim”]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>十七章</p>
<p>太上，下知有之。其次，親而譽之。其次，畏之。其次，侮之。信不足焉，有不信焉。悠兮其貴言。功成事遂，百姓皆謂，我自然。</p>
<p><strong>17</strong></p>
<p>no princípio, era o não saber<br />
depois, afeto e apreço<br />
depois, medo<br />
depois, desgraça</p>
<p>crença não é certeza<br />
presença não é crença</p>
<p>palavra que se preze<br />
faz pensar&#8230;</p>
<p>do concretizado há sequência<br />
para as pessoas comuns, faz sentido:<br />
“por mim é assim”</p>

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		<title>Homs</title>
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		<pubDate>Thu, 23 Feb 2012 01:07:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Obsidiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Carbono]]></category>
		<category><![CDATA[cidade]]></category>
		<category><![CDATA[coletivo]]></category>
		<category><![CDATA[culpa]]></category>
		<category><![CDATA[família]]></category>
		<category><![CDATA[responsabilidade]]></category>
		<category><![CDATA[vergonha]]></category>

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		<description><![CDATA[A responsabilidade é um fenômeno coletivo. Todas as instituições da sociedade republicana são nutridas pela ideia de responsabilidade coletiva, que entretanto permanece uma abstração, já que, do ponto de vista jurídico, o único enquadramento que reconhecemos para a responsabilidade é o do indivíduo. Eis o quão primitivas são as nossas instituições, apesar (ou justamente por [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">A responsabilidade é um fenômeno coletivo. Todas as instituições da sociedade republicana são nutridas pela ideia de responsabilidade coletiva, que entretanto permanece uma abstração, já que, do ponto de vista jurídico, o único enquadramento que reconhecemos para a responsabilidade é o do indivíduo. Eis o quão primitivas são as nossas instituições, apesar (ou justamente por causa) de toda a sofisticação do nosso modo de vida. No ocidente, educamos nossas crianças pelo esporte (mas não pelo jogo) e pelo drama teatral. É verdade que, em ambos os casos, se tem acesso rápido à genuína experiência da responsabilidade como fenômeno coletivo. Tudo se perde, entretanto, no retorno forçado a territórios institucionais que são como cidades fantasmas, onde o coletivo já existiu, mas hoje vive da reminiscência. O clã e sua casa, a tribo e o seu terreiro. Casa + terreiro = templo. Entre os templos, a praça. Ao redor da praça, a cidade. Em cada casa na cidade, uma família, mas nas cidadezinhas distantes ainda há a comunidade, quase clã.</p>
<p align="justify">É fácil dizer que não há alternativa (e foram tantas as tentativas&#8230;), e é fácil desafiar a quem diz que o rei está nu, que tente fazer comunidade verdadeira para si, então, fora do que manda o consenso: “vire-se”. O desafio é covarde. É também estúpido, já que impõe uma exigência que de saída é impossível de satisfazer: fazer comunidade a partir do banimento. Aliás, essa é a promessa da cidade, depois da metrópole, e hoje das redes sociais. É a razão do seu sucesso, e também da sua capacidade de frustrar, que se traduz nos refluxos contemporâneos do subúrbio, dos condomínios verdejantes, maternais. De todo modo, o desafio que propõem as velhas territorialidades, a alternativa “ame-nos ou nos deixe” é imoral, ela não defende efetivamente um legado. É em nome da <em>conservação</em>, e não da revolução, que se faz necessário buscar o comum fora de casa, fora do templo. Esse texto não se declara <em>contra</em> coisa alguma, portanto.</p>
<p align="justify">Tudo bem, até aí. Digo “tudo bem”, por que num quadro de impotência generalizada, imagina-se que o sofrimento faz parte da história, e que esse é o seu processo, e que assim caminha a humanidade, em busca do seu destino. Tudo bem se supusermos que não há outras potências em jogo – e sempre há, que se cristalizam em poderes, que se possibilizam. Tudo bem, enfim, se não tivéssemos um grande problema: a insistência em instituições fantasma sobrecarrega o arcabouço jurídico com as demandas por responsabilidade coletiva que não são atendidas, arcabouço esse que se encontra já parasitado pelas figuras da <em>irresponsabilidade</em> coletiva, que são as corporações.</p>
<p align="justify">O motor da responsabilidade individual é a culpa, o da responsabilidade coletiva é a vergonha. A diferença entre culpa e vergonha é um tema da psicanálise, ao menos a partir de Lacan, mas Deleuze também fala da vergonha de ser humano, em sua leitura de Primo Levi. Verificar o que “eu” fiz, para além da culpa/desculpa de que sabia/não sabia o que estava fazendo. No <em>fora </em>da cidade, da metrópole, da rede social, saber o que fazer é importante, sem imitar o que se faria “no interior” (Foucault), mesmo quando não se tem o luxo(?) de saber porque. Disso depende tudo o que pode nos acontecer, e se você não sente esse peso, eu lhe chamo: sem-vergonha…</p>

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		<title>道德經 十六章</title>
		<link>http://www.obsidiana.com.br/blog/?p=1162</link>
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		<pubDate>Thu, 16 Feb 2012 18:11:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Obsidiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Água]]></category>
		<category><![CDATA[dào dé jing]]></category>
		<category><![CDATA[Tao]]></category>

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		<description><![CDATA[十六章 致虛極，守靜篤。萬物並作，吾以觀復。夫物芸芸，各復歸其根。歸根曰靜，是謂復命。復命曰常，知常曰明。不知常，妄作凶。知常容，容乃公，公乃王，王乃天，天乃道，道乃久，沒身不殆。 16 sucede o vazio extremo: conserva, sereno intenso as coisas todas coerem eu as contemplo repetirem no que multiplica as coisas cada uma volta a raiz “reunir à raiz” soa sereno eis o sentido de reviver “reviver” soa constante “saber constante” soa brilho não saber-constante precipita desastre o saber constante contém de contém [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>十六章</p>
<p>致虛極，守靜篤。萬物並作，吾以觀復。夫物芸芸，各復歸其根。歸根曰靜，是謂復命。復命曰常，知常曰明。不知常，妄作凶。知常容，容乃公，公乃王，王乃天，天乃道，道乃久，沒身不殆。</p>
<p><strong>16</strong></p>
<p>sucede o vazio extremo:<br />
conserva, sereno intenso</p>
<p>as coisas todas coerem<br />
eu as contemplo repetirem</p>
<p>no que multiplica as coisas<br />
cada uma volta a raiz</p>
<p>“reunir à raiz” soa <em>sereno</em><br />
eis o sentido de <em>reviver</em></p>
<p>“reviver” soa <em>constante</em><br />
“saber constante” soa <em>brilho</em></p>
<p>não saber-constante precipita desastre</p>
<p>o saber constante contém<br />
de <em>contém</em> vem <em>divide</em><br />
de <em>divide</em> vem <em>reino</em><br />
de <em>reino</em> vem <em>céu</em><br />
de <em>céu</em> vem <em>caminho</em><br />
de <em>caminho</em> vem <em>persistir</em>:<br />
sem <em>mesmo</em> não há perigo</p>

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		<title>Owen, the barbarian</title>
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		<pubDate>Sun, 22 Jan 2012 05:37:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Obsidiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Água]]></category>
		<category><![CDATA[Carbono]]></category>
		<category><![CDATA[Ferro]]></category>
		<category><![CDATA[Hidrogênio]]></category>
		<category><![CDATA[belief]]></category>
		<category><![CDATA[community]]></category>
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		<description><![CDATA[Owen believes that, for a couple to be together and become a family, one of them has to be a believer. Not both, not none, just one. He believes that if both are believers, attrition is inevitable, because of  the distinctive trait that makes a believer what they are. &#8220;On what does a believer believe?”, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">Owen believes that, for a couple to be together and become a family, one of them has to be a believer. Not both, not none, just one. He believes that if both are believers, attrition is inevitable, because of  the distinctive trait that makes a believer what they are. &#8220;On what does a believer believe?”, he said to me once, “They believe, on a very fundamental level, that they <em>know</em> something others don&#8217;t. Now, if two people of this kind get together, you can easily imagine that the place where they live is not a house anymore, it is now a <em>courthouse</em>, a place where conjugality is unsustainable. You would voluntarily go to prison after a large enough time spent in front of a judge and a jury, even if you are not guilty. In fact, many trials (and marriages) have ended this way&#8221;.</p>
<p align="justify">And he kept going: “Another problem would arise if both <em>aren&#8217;t</em> believers. Now, the thing is, human beings are complicated. You see, not believing isn&#8217;t as easy as it may seem, there has to be a <em>motivation</em> behind it, and the motivation usually is an idea of freedom. Not freedom itself, obviously, but an idea of it, which is also an idea of power. Of course, two people that embrace such way of thinking on a very fundamental level, can&#8217;t be married to each other, they just can&#8217;t. At least not for a very long time, with one possible exception: the presence of very strong and concrete forces keeping them together against their will – and there are a few situations that are known to have justified marriages of interest, everybody knows that.”</p>
<p align="justify">Then he paused and, meditatively, added: “On the other hand, if just one of them is a believer, that&#8217;s when things get interesting. First of all, you would think this would make it easier to make decisions, but you&#8217;d be wrong. It just makes it, as I said, interesting. Logic, as a problem and a game, begins when belief meets disbelief. Of course, a third position may eventually disrupt this rich dynamic. Ironically, a third player is also needed as a catalyst, to make it work in the first place.” I thought he was becoming a little bit cryptic and waited for him to clarify, but he didn’t. After a moment of silence, he just said goodbye and left.</p>
<p align="justify">But that got me thinking. In the beggining there were communities of power (communities of land and blood: tribes and clans), because it was not as easy to share and preserve knowledge. Then, when it did become easier, communities of belief took over the world, and shaped it as it is today. &#8220;Knowledge is power&#8221; – a deliberate oxymoron – was one of their mottos; &#8220;truth will set you free&#8221; is another one.</p>
<p align="justify">What we see now is a ressurgence of communities of power, but in an interesting way: they do not compete with the existing communities of belief, <span style="text-decoration: underline;">they complement each other</span>. Even if relatively emancipated from their &#8220;rivals&#8221;, communities of power do not scale easily, which makes them (as always) vulnerable to degeneration, and even more so in a world of ever larger quantities and ever higher speed, so they had to develop containment strategies based on &#8220;borrowing&#8221;, or parasiting existing hierarchical structures to their own benefit, without getting encumbered by them. On the other hand, communities of belief have at last acknowledged that the world has become too interconnected for their expansionary drive to be exerted without safeguards: it is just too dangerous (which is why they had to give up their dominance, by the way). So what did they do? Well, they have an advantage, one that could prove decisive at the juncture where we are today.</p>
<p align="justify">Believers can silence.</p>
<p align="justify">

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		<title>Prezado aluno:</title>
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		<pubDate>Tue, 13 Dec 2011 02:30:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Obsidiana</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Você será avaliado pela sua escrita. É isso, nada mais. Você não será avaliado pelo que você fala, ou pelo que você faz, nem pelo que pensa (ou seja, pela sua presença), a não ser na medida em que esta fala, esta ação, ou estes pensamentos, se convertam em um registro escrito, que deve ser [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">Você será avaliado pela sua escrita. É isso, nada mais.</p>
<p align="justify">Você não será avaliado pelo que você fala, ou pelo que você faz, nem pelo que pensa (ou seja, pela sua <em>presença</em>), a não ser na medida em que esta fala, esta ação, ou estes pensamentos, se convertam em um registro escrito, que deve ser público. Por exemplo, o seu comparecimento às aulas produz um registro escrito; uma performance teatral deve ser avaliada <em>in loco</em>, na forma de um registro escrito, na presença de testemunhas, o mesmo vale para uma defesa de tese de doutorado, ou para um exame feito à distância, pela Internet. Um filme, por si só, não é um registro escrito, mas o seu roteiro é, e o seu <em>storyboard</em> também. Uma máquina, por si só, não é um registro escrito, mas o seu projeto é. O escrito pode começar <em>antes</em>, e deve terminar só <em>depois</em> do acontecido, do acontecimento, ele vem sempre tarde demais, e não há outro jeito. E o escrito tem que ser escrito com símbolos que não significam nada, por si sós. Com traços, que são como golpes. São os acontecimentos… da escrita. É em nome deles que as crianças, mesmo no tempo dos computadores, dos tabletes e da Web, precisam aprender a escrever com canetas, e pintar com pincéis.</p>
<p align="justify">Sendo público, isso não implica que o registro escrito deva estar disponível a qualquer um, a qualquer momento. Significa apenas que ele não é privado, e também que a sua guarda e utilização obedecem a regras estabelecidas previamente em legislação ou contrato (que também são documentos públicos, e por aí vai).</p>
<p align="justify">Voltando ao nosso assunto: acima de tudo, você efetivamente não será avaliado na medida do que você <em>já</em> sabe, nem do que você “realmente” sabe. Que você suponha ser dono do que pensa já é uma proeza, ainda mais se acreditar que os outros deveriam adivinhá-lo. Que você imagine aprender sem estudar (quando o que importa mesmo é o estudar, não tanto o aprender), é uma quimera. Ao escrever, as coisas inevitavelmente mudam, e é talvez por isso que você recuse o exercício. É possível que você tenha desistido de acreditar nas avaliações – e até de se preparar para elas – por conta dessa sensação de injustiça, de desonestidade, de &#8220;nada a ver&#8221;. Vou dizer uma coisa que poucas vezes se diz, mas que se sabe: as provas não são feitas só para avaliar. Elas são feitas também para desafiar, provocar, <em>colocar em cheque</em>, o que só se pode fazer se a coisa for a sério. A sério, mas não mortalmente. De maneira mitigada, portanto (espera-se): não estamos no ofício da tortura ou da execução. Enfim, isso quer dizer que as provas são feitas também com o propósito da auto-avaliação, da verdadeira auto-avaliação. Aquele conhecimento que você adquiriu <em>porque</em> <em>errou</em> não será reconhecido (a não ser por você mesmo, essa é a ideia), e é assim que tem que ser. Até aí é como um jogo, a derrota faz parte, mas a eliminação, não. É preciso que a escola tenha condições de separar esse reconhecimento que é da ordem da vitória no &#8220;jogo&#8221; da avaliação, do reconhecimento que ela confere para outros fins sociais – para outros fins… <em>fatais</em>. Isso, entretanto, é uma outra história, voltemos ao nosso assunto.</p>
<p align="justify">Como os professores são, e devem ser, seres de afetos (e o dia em que robôs forem professores, será o dia em que eles tiverem se tornado suficientemente humanos, o que pode perfeitamente acontecer), é inevitável que os seus afetos em relação a você interfiram na avaliação do seu escrito. Não é exatamente do interesse do professor que isso aconteça, acredite. Entretanto, a bem da verdade, é preciso dizer que – como aliás acontece em todas as profissões – nem todos os professores estão confortáveis na posição. Felizmente, porque os escritos são públicos, não se está completamente à mercê.</p>
<p align="justify">Agora vem a parte mais difícil. Um registro escrito é o que é porque não precisa mais da companhia do autor. Ele diz o que diz, não o que o escritor &#8220;quis&#8221; dizer – aliás, ele frequentemente diz o que o escritor <span style="text-decoration: underline;">não</span> queria ver dito, mas lhe escapou por entre os dedos. É possível que você esteja acostumado a escrever mensagens de e-mail, torpedos, posts em blogs ou redes sociais, enfim, é possível que você esteja acostumado a comunicar-se &#8220;por escrito&#8221;. É possível até que você se sinta à vontade para expressar-se sem cuidados, nesses meios sociais, ser &#8220;autêntico&#8221;.  Olha só como isso acaba sendo complicado: nem tudo o que está &#8220;escrito&#8221; com letras é propriamente um <em>escrito</em>. Um escrito é o que é porque compromete o autor, na medida em que não pode ser apagado, e aí nem tudo que está codificado vale.</p>
<p align="justify">É na medida em que o escrito compromete, responsabiliza, que ele também dá poder, e pode trazer perigo. Uma coisa vem com a outra. E é por isso que o seu professor insiste tanto em que você escreva com cuidado. E é também por isso que o seu texto vai ser lido, pelo professor, como se ele não o conhecesse. Um professor é alguém que faz esse trabalho, o de facilitar o trânsito da sua identidade privada para uma identidade pública. Graças a esse trabalho é que você tem um rosto. Quem nunca foi à escola, nem que seja para fugir dela (o que às vezes é o indicado, mas é preciso estar à altura), vai ter que fazer o seu rosto de outro jeito, pode ser muito difícil, pode ser impossível. Quem passou pelo processo tem agora uma cara que pode ser dada a tapa, pode se oferecer à vida na cidade. É por isso que o trabalho do professor é difícil, não porque ele tenha que estudar muito e &#8220;saber passar&#8221; as coisas que sabe. Aliás, nos tempos em que vivemos essas coisas não têm mais o valor que já tiveram.</p>
<p align="justify">Se você deixa que te escrevam sobre a própria pele, já adivinha o poder da escrita. Escrevesse na pele com a própria mão, isso seria notável. Escreve no papel, escreve no mundo inteiro, a pele é escassa.</p>

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		<title>&#199;a n&#8217;est pas une Monadologie</title>
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		<pubDate>Sat, 26 Nov 2011 20:26:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Obsidiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Hidrogênio]]></category>
		<category><![CDATA[filosofia]]></category>
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		<description><![CDATA[Dizer que o símbolo é o que é por não significar, implica que o símbolo não pode ser verdadeiro nem a si mesmo, ainda que seja apenas um ponto (mas se for um ponto, o que será isso, afinal?). Existe entretanto a imagem do símbolo, e também a suposição insistente de que uma certa imagem, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">Dizer que o símbolo é o que é por <em>não</em> significar, implica que o símbolo não pode ser verdadeiro nem a si mesmo, ainda que seja apenas um ponto (mas se for um ponto, o que <span style="text-decoration: underline">será</span> <em>isso</em>, afinal?). Existe entretanto a imagem do símbolo, e também a suposição insistente de que uma certa imagem, ou que um certo <em>modo</em>,&#160; possa remeter ao que seria a substância do símbolo. A suposição faz parte do jogo; a sua realização, não. Amamos acreditar que o jogo se desempata, um dia, mas a vitória da imagem o que faz, imediatamente, é ressuscitar o símbolo. O bezerro de ouro foi &quot;morto&quot; antes do retorno de Moisés, como gesto sacrificial – sacrifício do próprio sacrifício –, e só então pode ele voltar com a palavra (e quantas vezes isso terá sido ensaiado, sem sucesso&#8230;) A vitória do símbolo, por outro lado, é como a vitória do próprio troféu, que ganha a si mesmo. Afinal de contas, é cansativa a disputa, e tola. Essa é uma ilusão da qual a filosofia, por muito tempo,&#160; não pôde prescindir. Esse tempo, entretanto, já passou.</p>
<p align="justify">Mais uma vez, ajuda o exemplo da origem do olho nos animais, e de como ele se torna um <em>órgão</em>, de como o ouvido é um quase-órgão, de porque o tato, o olfato e o paladar permanecem sendo tecidos, de como a propriocepção, a cinestesia, e outros quasi-sentidos, nem tecidos específicos formam, e, finalmente, de como se pode pensar em um <em>continuum</em> que segue a direção de uma semiótica intercelular, depois molecular, etc. É tendo em mente esse continuum que retornamos ao olho, e ao olhar. Isso, entretanto, também não é uma fenomenologia.</p>
<p align="justify">Tudo isso então, para dizer que o olho serve para não ver. Mostrar algo, então, é o mesmo que fazer cerrar o olho. E, por isso, todas as artes do espetáculo estão hoje perdidas na sua própria abundância. Assim, para convidar a pensar não é preciso ensinar, basta cantar uma cantiga.</p>
<p align="justify">É para ver que, hoje, a filosofia, a literatura, e também a psicanálise (e outras práticas do &quot;espírito&quot;), são tudo, menos científica e/ou tecnologicamente ingênuas.</p>

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		<title>Constantes, hoje (hoje)</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Nov 2011 15:29:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Obsidiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Carbono]]></category>
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		<category><![CDATA[estrutura]]></category>
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		<description><![CDATA[Ao chegar a um certo momento da infância, se dá a saber aquilo de que se gosta no outro, senão o próprio gostar-de, transitivo, como potência. Um adulto pode ter filhos, e dá-se conta que, independente do desejo e do amor pelo outro (cônjuge ou não), existe a perspectiva de um amor pelos filhos, que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<ol>
<li>
<div align="justify">Ao chegar a um certo momento da infância, se dá a saber aquilo de que se gosta no outro, senão o próprio gostar-de, transitivo, como potência.</div>
</li>
<li>
<div align="justify">Um adulto pode ter filhos, e dá-se conta que, independente do desejo e do amor pelo outro (cônjuge ou não), existe a perspectiva de um amor pelos filhos, que é facilmente maior: num tempo em que os saberes da morte (como, porquê, quando) não estão mais dados – essa é a novidade –, não só, mas especialmente porque os filhos são escassos, é natural que a relação com eles assuma o primeiro plano.</div>
</li>
<li>
<div align="justify">Uma criança tem uma casa. É em torno da casa que se faz (ou não) o <em>casamento</em> dos pais da criança, e a montagem da família ampliada vai se enraizar também ali. Mesmo sem criança, um casal que faz uma casa, o faz em nome de filhos, mesmo que não saiba. E mesmo vivendo sozinho, é em casa (sim, nessa casa onde estaria possivelmente uma criança) que as coisas acontecem, mais do que na rua, por várias razões.</div>
</li>
<li>
<div align="justify">De uma casa se faz outra casa. Do outro se faz outro ainda. Essas coisas só compõem uma estrutura mediante um investimento massivo que, por ser deficitário, não se sustenta (embora possa talvez orgulhar a alguém). Não fazendo estrutura permanente é que podem, no entanto, sistematizar-se, diferenciar-se, continuar.</div>
</li>
<li>
<div align="justify">Conclui-se que um amor não precisa ser feito de ilusões pré-prontas. Ele pode ser “realista”, sem perder a graça, se estiver dado, e sabido, que há uma luta. Essa luta não precisa ser desleal, desde que certas questões estejam respondidas (poucas, mas importantes), e desde que a escolha das armas seja feita na presença da mediação adequada, que é algo que é necessário providenciar.</div>
</li>
</ol>
<p align="justify">Sabendo disso antes, fica muito mais fácil. </p>

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		<title>A Era do Meio (A Era do Desentendimento)</title>
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		<pubDate>Wed, 02 Nov 2011 16:39:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Obsidiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Carbono]]></category>
		<category><![CDATA[homem]]></category>
		<category><![CDATA[lei simbólica]]></category>
		<category><![CDATA[objeto]]></category>
		<category><![CDATA[outro]]></category>
		<category><![CDATA[sujeito]]></category>

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		<description><![CDATA[Há menos &#8220;sujeito&#8221; no &#8220;outro&#8221; do que deveria, do que se espera. Ele está lá, sim, não se tenha dúvida disso, mas é precário, deficitário. Românticos por um lado, e racionalistas, por outro, já lucraram muito com esta constatação, que mantêm (por razões óbvias) em segredo, mediante o qual sustentam o seu pseudo-antagonismo. Românticos e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">Há menos &#8220;sujeito&#8221; no &#8220;outro&#8221; do que deveria, do que se espera. Ele está lá, sim, não se tenha dúvida disso, mas é precário, <em>deficitário</em>. Românticos por um lado, e racionalistas, por outro, já lucraram muito com esta constatação, que mantêm (por razões óbvias) em segredo, mediante o qual sustentam o seu pseudo-antagonismo. Românticos e racionalistas, o que fazem, é promover, seja o sujeito (que deveria estar, digamos, mais generosamente, lá, onde é avaro), seja o seu suposto rival, ao qual também supõem poder reduzir, não tudo, mas <em>tudo o que importa</em>.</p>
<p align="justify">Na sociedade de massas, às mulheres foram atribuídos os encargos, as necessidades, mas não a responsabilidade. Isso é o que as torna mulheres, desde então: quando não estiverem mais sob o jugo da necessidade, não mais terão esse vínculo à sua disposição – vale lembrar que isso é, com efeito, possível, hoje, como nunca antes.  Repare no único desmentido que, ao menos até hoje, valeu para o postulado que começa esse texto (o de que há menos &#8220;sujeito&#8221; no &#8220;outro&#8221;, do que deveria), que é o da relação da mãe com seu primeiro filho homem. É a esse sucesso, único, que, modernamente, se reportam todos os outros fracassos humanos; é nele que reside o túmulo da vontade da mulher, e o túmulo do discernimento do homem.</p>
<p align="justify">A partir disso, a mulher teve que ser +sujeito para o homem (o que lhe custou caro), e o homem teve que oferecer o -objeto à mulher (o que também lhe custou, e ainda custa, caro). Essa é uma divisão do trabalho relativamente nova: ainda estão vivos os sinais de um tempo em que cabia a um único estamento (o dos &#8220;melhores&#8221;) ambos os papéis, a saber, o de humanizar o homem e o de humanizar o mundo. Esse tempo, por sua vez, também não é tão antigo assim, mas essa é uma outra história.</p>
<p align="justify">Os homens, agora que a divisão do trabalho simbólico está em movimento, estão na defensiva. Imitam compulsivamente qualquer coisa que lhes faça esquecer a responsabilidade: crianças, adolescentes, mulheres, seus pais, outros homens. Adotam uma série de condutas anestésicas, com o objetivo de escapar da dor que produz a constatação da própria ilusão. Por último, simplesmente fogem da própria fotografia, do próprio nome escrito no papel, da própria assinatura, à espera de que “isso” passe. Repetem incessantemente suas queixas ao feminino. São as velhas queixas à mamãe, agora quase sem disfarce. Ainda que não fossem: não é o feminino que põe em cheque o masculino.</p>
<p align="justify">Também é preciso dizer que, por mais que aumente o volume das acusações, por mais que se empilhem indícios de um suposto devir caótico do mundo, o feminino também não será posto em cheque. O feminino não pode ser responsabilizado pelos problemas do mundo, é mesmo o masculino em cada um de nós que vai receber esse ônus, de acordo com a lei que ele mesmo representa. Lei essa que permanece eficaz, mais eficaz do que nunca, diga-se de passagem: a busca da memória, a reconstrução da família e das tradições (inclusive de algumas categorias muito&#8230;incômodas), mais intensa que nunca, o testemunham. De onde se tira que a ultrapassagem da família burguesa de duzentos anos sinalizou a queda de um regime simbólico de milênios? Ainda mais: na presença de outros regimes mais antigos, imemoriais, plenos de vitalidade? Se as mulheres ainda se regozijam de sua posição de mero porta-voz da lei, serão evidentemente desconfortadas dessa posição: a responsabilização recairá também sobre os seus ombros; as representações não podem ser as mesmas, não podem ser tão fáceis de desmascarar.</p>
<p align="justify">É por isso que todos os que querem a igualdade defendem ao mesmo tempo as distinções legadas. Todas, menos uma, escolhida a dedo: a que convém à sua máscara. É claro que isso não pode funcionar, e não é isso o que interessa. O que poderia funcionar é a renúncia à busca de uma plenitude do sujeito, mas isso é um aprendizado ao qual apenas começamos a nos acostumar, os massistas, os do ocidente, os do <em>oeste</em>. Esse é um assunto a ser tratado com as crianças.</p>

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