Me dei conta de que um psicanalista e um físico quântico são primos, e não de um jeito barato. A ligação entre a Psicanálise e a Física não existe, deixemos claro de início. Há ressonâncias, mas elas valem o que valem, e isso não autoriza ninguém. Ressonâncias são ligações, por outro lado, mas não são ligações funcionais (e aí está a piada: são ligações… quânticas). Isso é outra história, voltemos.
O psicanalista e o físico quântico têm uma nobreza, uma distinção, digamos assim. Ambos se voltam para as coisas que existem, com o uso de categorias inteiramente estranhas ao mundo da experiência sancionada pela ordem do discurso. Incompossíveis com esse mundo que é tão “nosso”, essas categorias são entretanto também originárias da experiência, mas de uma outra (ou outras) modalidade de experiência, que esses valentes conseguiram fazer reconhecível, ainda que sempre com grande (e saborosa) dificuldade. As pessoas são como as coisas, quando vistas de bem perto: mudam de natureza de acordo com o modo de observar, de escutar. E assim a Física passou a ser também uma escuta. Que legal, eles escutam a própria luz….
Mesmo os psicanalistas (assim como seus primos) acreditam que essas várias modalidades de experiência não se misturam, pode haver furos, pontos de contato, mas a consistência delas se mantém: para todos os efeitos, para todas as conseqüências práticas, haveria isolamento – senão, qual é a graça? Para além dessas “barreiras de contato” fenomênicas (que, misteriosamente, parecem recobrir o mundo inteiro entre matéria e anti-matéria, entre eu e eu-mesmo), entretanto, compõem um multiverso, um Real polifônico, de que ainda se pode falar, embora corra-se o risco de dar bom-dia a cavalos. Coisa de louco: achei que a fenomenologia tinha morrido. Bem, ela com certeza está morta em si mesma. Assim, e por isso mesmo, adentramos a era da experiência.