Preconceito é um negócio de louco. Vamos lá: existe o preconceito de gênero e o preconceito de espécie [isso não é biologia, seria uma questão lógica, mas eu só quero um pouco de terminologia, para começar – como sempre]. O preconceito de gênero é o seguinte: você se aproxima de alguém e entende que esse alguém é do gênero x. Por exemplo, do gênero das pessoas desconfiadas, ou das pessoas que pensam rápido, ou daquelas que gostam de acordar cedo, ou outro gênero qualquer. Esse entendimento tem força de fato, ou seja, ele funciona, ele tem força de verdade, a despeito da sua verdade forçosa (a diferença é bem clara, não se complique). A outra pessoa, aquela que foi entendida por você, tem também o entendimento de algo que ela conhece como “eu mesma”. Se esse “eu mesma” é de fato ela mesma, bom, isso é uma outra história, e dela só vou dizer agora que não é tão importante assim.
Continuando: o entendimento de “eu mesma” pode ser bem complicado, cheio de frestas, ressalvas e confusões (por que ele não está aí para facilitar as coisas mesmo), e por isso o simples contato entre ele e o seu entendimento é conflito na certa, por mais boa vontade que se tenha. Agora, se eles estão organizados de forma intencionalmente contraditória, então não são bem pessoas que conversam, mas instituições, ou mesmo organizações.
E esse é o preconceito de gênero. Assim vivemos, disso sofremos e nisso sonhamos.
A ele se soma, eventualmente, o preconceito de espécie. Deveria haver uma palavra diferente, porque são coisas muito diferentes, e isso é muito importante, dá a maior confusão. Mas são distinções novas, é preciso tempo. Enfim, o preconceito de espécie é aquele que diz que “entre os do gênero x, fulano é daqueles que y”. Por exemplo, “entre as pessoas que pensam rápido, fulano é daquelas que são desconfiadas”. Bom, se o gênero já dava problema, imagine a soma. O pior é quando duas pessoas resolvem entrar em acordo a respeito de um, mas esquecem do segundo. Por que há uma questão de tempo aqui, e ela é decisiva: o entendimento a respeito dos dois deve ser absolutamente simultâneo. Ora, como isso é, na prática, impossível, o que a gente faz é ficar olhando o outro de longe. Fica olhando assim, meio com cara de boi.
Como não ser prisioneiro do conhecimento, vasto, que você tem a respeito dos outros, involuntariamente? Fazer a crítica não funciona, sua velocidade é pequena, é a mesma velocidade dos acordos, dos contratos e das denúncias. Fica-se na mesma. Tem uma coisa que pode funcionar: ser ativo no caminho do preconceito, adorná-los com qualidades e detalhes, até que eles comecem a compor imensos vitrais, tão ricos que a gente se esquece um pouco dos efeitos de verdade. Aí dá um baita medo, porque acha que vai ficar ser reação diante de um desconhecido. Você fica sem reação, sim, mas fica com ação, que é muito melhor.
Olha só, você provavelmente não tem planos de viver para sempre. Não é mais criança, enfim. No lugar desses planos, entretanto, é quase certo que se instalou um projeto de vida eterna, que é o projeto dos conceitos. Isso também não se realiza: os pensamentos também morrem, ok? Todos. E nem duram muito tempo. E cuidado com a imagem de um “vazio” que estaria à espreita dos pensamentos, como um silêncio de fundo, ou um pano branco à guisa de cenário. A Ciência, que pelo menos para isso serve, nos demonstrou, e redemonstrou, que esse silêncio, que esse vazio, não existem, em lugar nenhum.
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